sexta-feira, 18 de março de 2011

POR AMOR

3 - PALAVRAS

Luís voltou ia sentar-se junto do velhote de quem recebera a informação.
Mas a seu lado, já entretanto se tinha sentado uma mulher, de cabelos brancos, rosto rosado e bondoso. O homem tinha o braço à volta dos ombros da companheira, mostrando naquele gesto muito mais que mil palavras.
Os olhos vivos e curiosos daquele par enamorado desmentiam a idade, e despertavam um desejo forte de comunicação.
- Se me permite, pergunta o velhote, diga-me lá o que traz aqui um homem novo, vindo da cidade para este sítio esquecido por Deus? O senhor não é um caixeiro-viajante, pois eles já há muito deixaram de por aqui passar. Sabe, aqui somos apenas algumas centenas de habitantes, na maioria da nossa idade e não somos objectivo de negócio. Por isso me interrogo da sua mudança. Não é por desconfiança, a vida já me ensinou a identificar os que se movem apenas por desígnios menos claros, pergunto porque qualquer coisa me diz, que o senhor é capaz de precisar mais da nossa ajuda do que imagina. Não se iluda, nem todos estão tão ausentes como os que viu sentados naquele banco.
Luís olhou com mais atenção para o casal.
As palavras que ouvira e o tinham surpreendido, eram fruto de vivência e sabedoria, mas a ternura daquele casal de cabelos brancos, ficara gravada para sempre. Como ele gostaria de ter vivido um amor assim.
-Gostei muito de o ouvir, admira-me a sua perspicácia porque numa coisa o senhor tem razão, eu vim de um mundo do qual pretendi fugir. Não fiz mal a ninguém, só a mim próprio. Tem razão, eu não lhes trago nada, quero antes perceber como se pode ser feliz e viver com o carinho que demonstraram um pelo outro. O senhor e a sua companheira, já me começaram a ajudar.
- Olhe o meu nome é José Maria Valente, mas aqui todos me tratam por Ti Zé da Eira. A minha mulher chama-se Catarina, criamos filhos que estão longe e nós ficamos vivendo um pelo outro. Quando quiser olhe para nós como amigos. Repare, o Manuel já abriu o estabelecimento, já lá falar pois ele é a pessoa indicada para o ajudar a ir para a sua nova casa.
Luís confirmou que a porta, protegida com uma rede colorida, já estava aberta e para lá se dirigiu.
-Vossemecê quer alguma coisa do meu estabelecimento? É só entrar e pedir, porque aqui não falta nada, e o que não houver hoje, posso garantir que será entregue amanhã à tarde, disse-lhe um homem ainda novo, e que pelos vistos era o dono da mercearia.
- Eu ainda não sei do que vou precisar. Primeiro tenho de chegar a casa, e depois de arrumar as minhas coisas ver então o que me faz falta. Mas não sei o caminho e por isso lhe venho pedir a sua ajuda.
- Então o senhor é que comprou a casa da colina, perguntou o merceeiro?
- Sim fui eu. Queria um lugar isolado, onde pudesse encher os pulmões de ar puro e contemplar a paisagem. E não encontrei nada melhor.
- Lá isolada a sua casa é. Respirar ar puro e admirar a paisagem também lhe vai ser fácil, mas ela já está desabitada há muito tempo, e poucas condições lhe poderá oferecer, em termos de conforto. A não ser que esteja nos seus projectos refazer a casa, o que irá ser caro e demorado. O acesso também não é nada fácil. Se bem me recordo, existe apenas um carreiro, que deve estar em mau estado, e que era utilizado, por uma carrocita pequena, puxada por um burro, quase tão velho como o casal que lá habitava, e lá morreu. Não o quero desmoralizar, o sítio é muito bonito, de verdade, mas também vai encontrar problemas que não previu, como por exemplo o abastecimento. Aqui não há rede de telemóvel, e para encomendar o que precisar, tem de o fazer com antecedência, para que eu lho possa fazer chegar. Digo eu, porque sou o dono do único minimercado existente na povoação.
Se quiser esperar mais um tempinho, logo que chegue o rapaz que habitualmente me ajuda a tomar conta da loja, eu levo-o lá, no reboque da motocicleta, porque carregado como está, não vai conseguir fazer a subida de uma só vez.
Oh meu amigo, se me puder fazer esse favor, eu espero o tempo que for preciso. Aliás tempo é coisa que não me falta.
Então eu já volto. O meu nome é Manuel Azinheira, se precisar de alguma coisa é só falar comigo.
Muito obrigado, não me irei esquecer.
Esperou um momento e deu pela chegada do Manuel montado na motocicleta, puxando um pequeno atrelado.
- Vamos embora amigo, vamos lá encontrar a sua nova casa.

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