segunda-feira, 21 de março de 2011

POR AMOR

6 – A CASA VAZIA
Luís começou a arrumar a trouxa e a carregar o atrelado. Enquanto fazia o trabalho, olhava com outro modo, a casa que o desencantara. Sob o sol brilhante, já não lhe parecia um lugar tão lúgubre e prometeu a si mesmo que voltaria, até porque pressentia que aquele local, aquele momento, aquele encontro, iriam ter muita influência na sua vida.
Quando acabou a tarefa, procurou Joana, sentada imóvel e ausente, olhando o horizonte que se lhe estendia, talvez, arriscou ele, pensando do sonho de amor. Ficou intrigado, teria sido Joana uma protagonista da história?
Esta, como adivinhando o interesse que suscitara, sugeriu:
- Venha, sente-se a meu lado, olhe os campos, as árvores, as sombras e vai ver que este lugar tem qualquer coisa de mágico.
Luís partilhou a visão mas, sobretudo, fixou-se no perfil da mulher, sentiu a magia do momento, e acrescentou:
- Eu não posso esconder que, este momento belo e mais a sua presença, também me fazem sonhar. É verdade que aceitei a sua proposta, que agradeço, mas espero que não venha a considerar este intruso, um doido que encontrou nu e tremendo de frio, no cimo da encosta e a quem vai ajudar, por caridade.
Joana não respondeu, desviou o olhar, dirigiu-se para a motocicleta, ligou motor e sentou-se ao guiador. Vendo que Luís estava parado, observou-lhe:
- O atrelado não suporta mais peso, por isso o seu lugar terá de ser partilhado comigo, no selim do condutor. Agarre-se bem à minha cintura, pois não quero perdê-lo, logo a seguir a tê-lo encontrado.
A descida da encosta foi feita com razoável velocidade e destreza, e obrigou Luís a colar-se ao corpo da condutora. Sentiu o seu calor, há quanto tempo não sentia o calor do corpo duma mulher, mergulhou o rosto na cabeleira farta e respirou o cheiro a alfazema.
A mota parou à porta da casa, mas Luís nem disso se apercebeu. Foi Joana, quem com um sorriso irónico lhe disse: - Pode largar-me, já chegámos!
Luís estremeceu, como se acordasse dum sonho.
- Esta é a casa que pode ocupar enquanto não fizer a recuperação da casa da colina. É a minha casa, mas eu apenas me sirvo do rés-do-chão, quando estou na aldeia, normalmente dois ou três dias por semana. O primeiro andar fica à sua disposição e se quiser, utilize o terraço para fazer os exercícios do costume. E lá pode correr nu, porque ninguém o vai ver. Considere-se em sua casa, aqui tem a chave. Se quiser sair, pode deixá-la debaixo do vazo de flores que está na janela. Se hoje eu tiver tempo passarei por cá, senão voltarei no fim-de-semana. Gostei de o conhecer e espero que o nosso encontro seja o princípio de uma boa amizade.
Luís entrou na casa, subiu ao primeiro andar, arrumou as suas coisas e estendeu-se na cama. A solidão pesava, mais agora que Joana lhe ocupara o pensamento. E de repente, ele que vivera só, por tanto tempo, olhava para as paredes duma casa que não conhecia mas que, naquele momento, lhe parecia tão só.


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