6 – CORAÇÃO FERIDO
Na hora combinada Rosália e Luís Gonçalves, encontraram, finalmente, quem lhes podia contar a história. Era um casal ainda jovem que os recebeu com simpatia.
Convidados para a sala, o marido sugeriu que fosse a esposa, Mariana, a falar sobre o Senhor Filipe.
- Tudo bem, eu vou contar o que sei, respondeu Mariana:
- O senhor Filipe Costa era o proprietário deste imóvel. Sofrera uma depressão que o obrigou a pedir a reforma no Banco onde era gerente. A esposa e a filha trabalhavam nos escritórios de uma companhia de seguros, na baixa da cidade.
Como não tinha nada para fazer, o Sr. Filipe habituou-se a levar e depois esperar a mulher e a filha, ao eléctrico que parava no Príncipe Real. Foram dois ou três anos a fazer esse caminho. Coitado, mal sabia ele o que o destino lhe reservava.
A filha, teria na altura cerca de trinta anos, contraiu uma doença, das que não perdoa. Morreu em grande sofrimento três meses depois do diagnóstico. Passados dois meses foi a Mãe a morrer com um problema cardíaco já antigo mas que o desgosto da morte da filha agravou. O Sr. Filipe, mesmo doente, tratou da filha e da mulher com todo o carinho e desvelo que era capaz. Foi ele que cuidou das suas doentes, com a orientação e ajuda periódica de uma enfermeira que os visitava. Foram seis meses de muito sofrimento. Primeiro perdera a filha logo depois a mulher, a sua mente perturbada e sofrida nunca compreendeu ou aceitou o facto. Na realidade ficara só, com as suas memórias.
Tinha uma empregada, que vinha todos os dias tomar conta da casa. Era quase uma pessoa de família, tinha a responsabilidade de cuidar da casa e do patrão e foi ela que não deixou que o Sr. Filipe se afundasse no desespero e na angústia. Fora ela a dar-lhe os cuidados e a força de continuar vivendo.
Por isso, ele continuou a fazer o mesmo percurso, levando nos seus olhos as imagens da Mulher e da Filha, esperava-as sentado no banco do jardim. Depois, voltava a casa falando, como se as tivesse a seu lado.
E foi percorrendo o caminho do sonho, durante mais alguns meses.
Depois apareceram os familiares, atraídos pelo cheiro do dinheiro. Um deles, mais esperto, conseguiu que o Sr. Filipe assinasse a doação em vida, de todos os seus bens. Ficou dono e senhor, é ele o actual administrador do prédio.
Porém, ganancioso como era, decidiu despedir a empregada, internar o Sr. Filipe num lar e alugar a casa livre.
Revoltados com este comportamento, em nosso nome e no de mais alguns vizinhos, decidimos consultar um Advogado, para se ver o que poderia ser feito para anular o roubo. O conselho foi de que, como o assunto fora tratado, nós nada poderíamos fazer.
É tudo o que sei, e que me é penoso recordar.
Tenho aqui, um cartão com o nome do lar, que um dia pedi e obtive da porteira, com a promessa que, não o daria a ninguém. Não vou, naturalmente, quebrar essa promessa, mas aqui o têm. Podem tomar nota dos dados que quiserem. Eu depois volto a guardá-lo.
Se tiverem coragem, para irem ver um homem que a vida maltratou, que morreu por dentro e que nada o mantém neste mundo, salvo a ilusão de que a mulher e a filha, um dia, hão-de voltar a descer do eléctrico, junto ao banco do jardim, façam-lhe uma visita.
Eu, pessoalmente, não serei capaz.
Luís nada dizia, o olhar estava toldado pelas lágrimas. O coração ferido sangrava de dor. Uma dor muito intensa, porque era, também, a dor do seu amigo.
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