segunda-feira, 18 de abril de 2011

O EXECUTOR

2 – A VIAGEM
Londres era para Pedro a primeira paragem do seu regresso. Quando havia iniciado a sua aventura, tivera o cuidado de escolher duas residências, dois lugares de partida e de chegada.
Escolhera Londres, marquem esquerda do rio Tamisa, na pequena e pacata zona de “Newington”. Ali tinha alugado um pequeno apartamento, que utilizava também como escritório do consultor financeiro William A. Putman, a sua outra identidade. Prestava serviços de consultadoria para um único cliente, um Banco de Investimento, sediado em Singapura. Os serviços que prestava a um único cliente, eram o disfarce, a capa do seu verdadeiro trabalho.
Nas viagens que fazia, frequentemente para algumas praças financeiras do Médio Oriente, Dubai e Emiratos no Golfo, utilizava a sua identidade Britânica e respectivo passaporte. Londres, centro financeiro, era o ponto de partida. O pretexto era perfeito, tinha sido até agora.
O apartamento que utilizava era contratado por períodos curtos, nunca mais de seis meses. Era uma regra de segurança que cumpria escrupulosamente. Evitava a repetição de gestos, de hábitos, de encontros e assim era-lhe mais fácil preservar a sua independência e permanecer incógnito no meio de uma vida falsa.
Com todas as regras de segurança que a si mesmo impusera, e porque o estudo e preparação de uma missão era uma tarefa solitária e que não lhe ocupava muito tempo, tinha muito tempo livre que aproveitava para ler ou passear, mas em lugares sempre diferentes. Numa cidade como Londres, cheia de turistas mas com câmaras de vigilâncias estrategicamente distribuídas, passar desapercebido era um desafio.
Mas estava cansado de fugir à rotina e as mulheres da sua vida, e muitas tivera, nunca se haviam apercebido do seu comportamento esquivo e cauteloso. Na realidade eram amores de curta duração e isso, que começara por ser agradável e desafiante, tinha-o tornado um homem frio e distante. Não tinha amor, não tinha filhos e não tinha razão de viver.
O medo do vazio em que a sua vida se tornara, era um perigo que ele sentia poder tornar-se perigoso.
Regressava agora do outro lado do mundo. A missão, apesar de simples, fora realizada numa pobre e escura casa, algures na fronteira entre o Uruguai e o Brasil deixara-lhe um sabor amargo. O olhar de alguém indefeso, que não resistira, fez tremer a mão de Pedro que, pela primeira vez, sentira as mãos manchadas de sangue.
Tinha feito a ligação Lisboa, Rio de Janeiro e Porto Alegre e depois de carro alugado até ao destino. Para o regresso tinha reservado o sentido contrário. Mas sem saber porquê, talvez pelo hábito de alterar comportamentos e rotinas, ou impelido por qualquer sentimento que não soubera a razão, mudara o rumo e voara de Porto Alegre para S. Paulo e dali para Londres, via Nova Iorque.
A viagem para Londres, feita em classe executiva e de noite, daria tempo para ele descansar e acalmar as angústias que sentira.
Mas, por ironia do destino, a noite seria o começo de algo perigoso. O começo de um romance de amor.
A seu lado no avião, viajava uma mulher bonita, elegante e com o olhar intenso. E Pedro não resistiu.

Sem comentários:

Enviar um comentário