1) – NOITE EM NOVA IORQUE
A noite fora um pesadelo, imagens desfocadas, sangue a correr dum corpo estendido no chão de uma casa imunda. Abriu os olhos e espreitou na janela a noite escura. Estava encharcado em suor, a cabeça quase rebentava. Reconhecia que não ia ser fácil abandonar o trabalho que vinha realizando há mais de dez anos. Durante os quais mentira, dissimulara, criara relações de amor que sempre acabara traindo. Uma vida, cheia de recordações que não queria relembrar. O que fizera durante aquele tempo fora muito duro, mas fora o caminho que escolhera. Agora lamentava o passado, os erros que cometera, as marcas que lhe deixaram feridas, noites de solidão e amanhãs de dor e arrependimento. Estava esgotado e, reconhecia agora, sem a tranquilidade que nunca procurara mas de que agora sentia falta. Lamentava as amizades perdidas ao longo do tempo, esquecidas na voragem duma vida feita de segredos que nunca pudera partilhar. Iria desistir, não sabia como, nem as consequências do abandono. Mas, mesmo assim estava na hora de fechar aquele capítulo da sua vida. Naquele dia, espreitando duma janela de hotel, as estrelas brilhando numa noite escura, sentiu-se, ainda mais só e sem vontade de continuar. Fumou um cigarro, procurou um cinzeiro que o quarto não tinha, acabou inspirando o fumo no quarto de banho, olhando-se no espelho. Olheiras marcadas num rosto barbado de uma semana, olhos pretos, cabelos brancos a espreitarem nas têmporas. Abriu a torneira de água fria, esfregou as mãos, de que cuidava com atenção, pois sabia que a sua vida estivera sempre dependente da força e agilidade daquelas mãos, treinadas para matar. Sim, tinha morto pessoas que nem conhecera, que outro havia escolhido como alvo a eliminar. E eram as imagens dessas mortes que lhe ensombravam os sonhos. O amanhecer tímido e silencioso deu-lhe algum descanso. Da janela olhava agora as águas cinzentas do Rio Hudson, as silhuetas de tantos edifícios, que por entre os alvores da manhã, apontavam o céu, lugares carregados de história e de mistérios. Estava num hotel na cidade de Nova Iorque, tinha reserva para o voo para Londres, com hora de partir ao fim da tarde. Era em Nova Iorque, a cidade de que mais gostava, que Pedro Dias, como um aventureiro solitário, utilizara como porto de abrigo, depois de cumprida a sua última cruzada. Esperava.
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