Desde que me conheço que gosto de ouvir histórias. Miúdo de calções e pés descalços ouvia os mais velhos contarem coisas sobre as suas vidas. Nem sempre eram verdade, muitas eram inventadas mas para mim foram sempre fascinantes.
Sinto pena pelas que esqueci, mas recordo com saudade os rostos dos contadores de histórias que enriqueceram a minha infância, acompanharam a minha adolescência e até enquanto adulto, me levaram a ver o mundo.
É recorrendo a fragmentos que guardei, que irei reconstruindo as histórias, em que como sói dizer-se, “quem conta um conto acrescenta um ponto”. Aqui vai a primeira inspirada nem eu sei em quê, alguma coisa, contudo, será!
1 – O HOMEM A CORTIÇA E OS BURROS
Era uma vez, há muitos anos atrás, um homem empreendedor que resolveu investir no seu futuro e no da sua família.
Não tinha meios de fortuna, bancos para apoiar financeiramente nem pensar, apenas tinha a sua ideia e por ela lutou.
Estávamos no final dos anos quarenta, a guerra trouxera a fortuna de muitos, mas para aqueles que como o protagonista desta história estavam longe dos centros de negócio e do poder, o caminho era muito mais difícil.
O nosso homem vivia no norte do Alentejo, naquela parte onde os Alentejanos perdem um pouco das características dos habitantes do sul e se aproximam dos traços dos lusitanos puros, descendentes dos povos da montanha.
Todavia algo para além do rio Tejo os separava. Entre os pobres havia mais solidariedade entre os que nasceram no sul.
Isto afinal nada tem a ver com a história que vos quero contar.
O nosso empreendedor, depois de algumas sortidas a contrabandear durante e até final de guerra civil de Espanha, decidiu mudar de vida. O seu destino estava traçado, trabalhar no campo quando os senhores da terra queriam, ganhando o mísero salário para um trabalho de sol a sol e foi disso que quis fugir.
Depois de muito pensar decidiu montar uma empresa de transportes.
Não teria camionetas, mas as estradas pouco mais eram que caminhos de terra, serpenteando entre as herdades e as manchas de sobreiros. Assim escolheu o meio de transporte mais adaptado. Uma frota de burros, bem resistentes e cujo consumo se resumia à erva que iam comendo na beira dos caminhos. Juntou quatro belos e teimosos exemplares, preparou algumas albardas e começou a conduzir o seu negócio de transporte.
Pelos caminhos dos vales e dos montes procurava os locais onde eram empilhadas as pranchas de cortiça virgem, que os corticeiros, homens treinados a manejar o machado sem ferir as árvores, retiravam, de sete em sete anos.
Era fácil encontrar esses locais, bastava seguir os sobreiros despidos, com o tronco assinalando o ano de extracção.
O negócio que o nosso empresário montou era o de transportar até à fábrica a carga que os animais podiam suportar.
Era um negócio interessante, havia procura e ele satisfazia a exigência principal dos produtores. Baixo custo de transporte.
E era esta a história.
Mas agora que a escrevo, parece que alguma coisa me falhou. Tirando o bucolismo das caravanas de burros transportando a matéria-prima, haveria mais alguma coisa?
De repente lembrei, como um simples comerciante da área dos transportes animais, se transformou num moderno empresário de sucesso, recorrendo ao que hoje ouvimos falar de inovação.
Ele cobrava uma percentagem por cada quilo transportado. Os burros eram pesados antes com umas albardas mais leves e pesados com a carga de cortiça, sobre novas albardas convenientemente recheadas de areia molhada. O comprador final pagava a areia molhada ao preço da cortiça. O IBT do empresário era também o seu IAT. Para quem não sabe o que as siglas representam, acrescendo que, como qualquer empresário que se preze, e que ainda hoje existem e ouvimos falar, não pagava impostos. Certo é que o negócio prosperou, a frota de burros foi aumentada com upgrade. Havia burros velhos e pequenos para a primeira pesagem e outros bem nutridos para a segunda pesagem.
Afinal quem é que consegue distinguir um burro velho de um burro novo? Olhamos para eles e são todos burros.
Com muito respeito e carinho que eu tenho por aqueles espertos animais.
NOTA IMPORTANTE:
A história aqui contada é pura ficção. Qualquer semelhança com factos ou pessoas será pura coincidência.