sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O HOMEM QUE RI

4 – A PARTIR DESTE MOMENTO

Nestes dias de um verão envergonhado, fiquei mais tempo em casa e logo, sujeito ao suplício de ver programas de Televisão. Contudo, tenho para comigo, que o sacrifício que faço há-de ter alguma recompensa, se não for neste mundo, será no outro.
Do outro mundo passei rapidamente para este e logo fui confrontado com um sinal dos tempos.
Seria que o verão estava assim tão envergonhado por ter de brilhar e aquecer um bando de submissos cidadãos, cujo único defeito, histórico aliás, é de não gostarem de pagar o que devem?
Para um povo ordeiro e conformado com o destino que nunca soubemos mudar, só faltava mais esta. O nosso Sol mudou-se para outros lugares.
Não me admirava nada que outros poderes, sobrepondo-se aos da Natureza, tivessem decidido baixar o rating do nosso sol, de triple A para triple M!
Era com esta angústia instalada numa cabeça cada dia mais desordenada, que ouvi na Televisão, qualquer coisa que me despertou.
Não me é fácil acordar mas desta vez valeu a pena. Era o Ministro das Finanças a falar sobre a bondade de uma comissão de acompanhamento da execução orçamental, dos desvios na despesa e na quebra da receita. Enfim a conversa do costume. Todavia algo me dizia para continuar ouvindo. Já não me importava se o objectivo fosse apenas um programa de recuperação de emprego, porém o interesse cresceu, quando o Ministro admitiu que, para dar credibilidade às análises da dita comissão, o lugar de Vice-Presidente deveria ser entregue a um Estrangeiro. E até foi mais longe, estimando que o modelo serviria para tranquilizar os mercados e poderia representar uma redução da despesa com os juros da dívida pública, da ordem de milhares de milhões de euros.
Esfreguei os olhos, teria ouvido bem?
Admitindo que sim, mais uma vez o Governo deste triste País mostrou falta de ambição.
Então, não seria melhor que a Comissão fosse constituída só por estrangeiros? Deixaríamos para os indígenas os lugares de telefonista e de motorista, lugares que apesar de eminentemente técnicos, qualquer Doutor, com ou sem mestrado, os poderia desempenhar.
Agora pensem, se só com um Vice-Presidente estrangeiro a poupança era tal, se fosse a Comissão inteira quanto não seria? Nem me atrevo a fazer as contas.
Anda com isso para a frente Senhor Ministro e já agora considere na análise custo benefício:
- E se o Governo fosse escolhido através de um concurso internacional? Ou muito me engano ou essa seria a reforma do século.
Contudo não podemos esquecer que o facto do Parlamento representar o Povo, os seus direitos deverão ser devidamente acautelados. A Assembleia da República continuará a fazer o seu trabalho, como até aqui.
Neste modelo só não sei que papel caberia ao Senhor Presidente da República e aos Tribunais? Se ficar tudo na mesma receio que o concurso internacional fique deserto.
Mas as ideias que alinhei podem nem ser assim tão estranhas. Não será esse o caminho apontado quando se ouve falar de “European Governance”?
Pelo caminho que as coisas levam na Europa em desagregação, talvez seja melhor rever este conceito para simplesmente “Governance”. Ficará em aberto quem governa.
O risco, é que o Português tem o mau hábito de traduzir para uma linguagem terra a terra e quase sempre o faz com humor. E a palavra “Governance” presta-se a todas as interpretações maldosas.
Exceptuando esse aspecto acho que a minha ideia é genial. A partir deste momento tudo pode vir a ser diferente.E mais belo.

Sem comentários:

Enviar um comentário