quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O HOMEM QUE CHORA

7 – A PROMESSA QUEBRADA

O desespero tem um preço e eu paguei. A raiva corrói e deixa feridas que demoram a cicatrizar. Ficamos isolados no nosso mundo e o grito, mesmo que saído do fundo do peito, não passará de um sussurro no meio de tantos gritos de horror, a cada momento e em cada lugar do mundo. Prometi a mim mesmo que não iria deixar que os sentimentos se sobrepusessem à razão. Este espaço seria sempre a maneira do EU mais contido, mais introspectivo, sair da clausura, dos dias sem futuro.
Nunca aceitaria seguir o caminho mais fácil. Fui e ainda penso ser, tão cioso da minha independência que sempre me recusava a polemizar, sobretudo não falando de política, que até é assunto nobre e que me interessa, mas de políticos cada vez mais medíocres e formatados.
Quer isto dizer que me arrependo? Não, mas reconheço que perdi o controlo.
Afinal tudo o que venho escrevendo, nada é novo, mudam os intérpretes mas as personagens são sempre as mesmas e quase sem dar por isso esqueci a minha promessa.
Não resisti, fui fraco e o sentimento de raiva e de revolta acumulado, tinha que explodir, fazendo esquecer a razão.
Porque até aqui, neste canto à beira mar, o Regente da Banda dirige com a mesma partitura. Apenas mudou o tom de Fá para Só. Do alto do seu pedestal utilizando as redes sociais, que ele recentemente descobriu, vem apelando aos sacrifícios do povo obediente e confundido com a promessa de melhores dias. Com o Facebook, evita polémicas e também seja reconhecido pelo característico e bem perceptível sotaque Algarvio.
Da orquestra, nomeada com pompa e circunstância pouco se ouve falar. A excepção é alguém que não se esconde, dá a cara, o que nem sempre é fácil, quando a sua primeira actividade é ser cobrador. Ele é o nosso pesadelo mas eu não queria estar na sua pele. Quanto tempo resistirá? Aceitam-se apostas!
Outros foram bem mais espertos. O Astronauta Álvaro por exemplo, que paira sobre as nuvens aguardando o bom tempo para desembarcar. Esperará, penso eu, que a economia cresça e crie emprego. Diz quem sabe que a nave em que viaja está abastecida para uma estadia de cinco anos. Não será mau, assim estará a salvo de qualquer desagradável recepção, por parte dos desempregados que tiverem resistido
Finalmente, a maioria dos ministros, secretários de estado, adjuntos, chefes de gabinete, conselheiros, analistas e jornalistas a soldo, vai tentando passar entre as gotas da chuva, por enquanto suave. Todos os dias olham o céu com medo de alguma trovoada repentina. Pouco ou nada têm feito e nada têm para dizer. Que bom, assim sempre se consegue poupar electricidade, pois o aconselhável é mesmo desligar a TV.
Mas para maior espanto, o mais falador anda desaparecido, passeando o seu guarda-roupa de vendedor de gelados. Esperto é, se alguma coisa correr mal, não sabia de nada.
No meio há uma estrela que nunca empalidece. O seu “talk show” das noites de domingo é brilhante. Ele fala e sabe de tudo. Não é bem uma conversa em família mas às vezes tem um toque. Coisas da vida.
Valha a verdade que se diga que quem fez o trabalho foi a troika. Ao Governo basta tocar pífaro e tambor. A música foi escrita por outrem. Qualquer um faria igual. Até eu, passe a imodéstia.
Vou acabar. Como disse o meu desespero teve um preço bem alto, fiquei só. O meu amigo John Doe, a minha consciência, a minha razão, desapareceu. Eu quebrei a promessa. Ele sempre me segredou e tinha razão:
- Porquê perder o tempo que te resta a esgrimir contra forças que são imutáveis? Só contra o mundo? Pode ser poético, mas acabará em tragédia!
Perdi o meu amigo, fiquei perdido. Salto de palavra em palavra e não o encontro. Sinto-lhe a falta.
Ah, como eu desejaria que ele aqui estivesse!


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