quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O HOMEM QUE RI

3 – MUDA DE VIDA

De caderno na mão fui seguindo a Dona Maria enquanto procurava decifrar as perguntas.
Finalmente fiz a primeira, com algum receio não fosse a simpática senhora julgar que eu estava a brincar:
- Dona Maria já ouviu falar daqueles especialistas que disseram que Portugal era só lixo?
Resposta pronta:
- Não me diga que esses especialistas de que fala são os fiscais da Câmara que uma vez por outra vêm fiscalizar o meu trabalho? Se é a esses que se refere, desde já lhe digo que são uma camada de incompetentes e analfabetos que apareceram nem se sabe donde.
Não fui muito feliz a formular a pergunta, pensei, decidi tentar de novo:
- Dona Maria desculpe, não falei desses especialistas, referia-me às notícias que uma Agência tinha classificado de lixo o nosso país. A senhora ouviu essas notícias?
- Oh nem me fale disso. Quase nem dormi, pois esses senhores devem pertencer a uma empresa de limpezas que já ouvi dizer, anda desejosa de tomar conta do negócio.
São os interesses a falar. Eu desafio a mostrarem se conseguem fazer um trabalho melhor que o meu, ganhando o que eu levo para casa todos os meses. E não falo só por mim, também pelo meu colega que se ocupa da zona mais acima e que de um momento para o outro viu duplicar o seu trabalho, só porque o nosso primeiro-ministro habita naquela zona. E o senhor pode não acreditar mas, segundo o senhor Joaquim,o lixo aumentou para mais do dobro.
E a Dona Maria, furiosa deu mais umas vassouradas no passeio, resmungando com a falta de consideração dos moradores que levam os cães a passear, deixam ficar a porcaria e lá ia ela limpar. Sempre gostava de saber o que é que esses especialistas de que me falou dizem sobre isto. Aposto que nem respondem!
A coisa não estava fácil. Voltei a pedir desculpa e reformulei a pergunta?
- Dona Maria a Agência que eu referi é americana e classifica a dívida do nosso País?
- Então porque é que o senhor não me disse logo que falava da Moody’s? Como é que eu ia adivinhar?
Engoli em seco, dei mais uma volta ao caderno fingindo que lia, enquanto recuperava da surpresa.
- Peço mais uma vez desculpa, não tive jeito nenhum para fazer a pergunta. Mas agora vejo que está bem informada. Sim é verdade, é desses que eu falo.
- Olhe aqui para este contentor, é para reciclar papel, mas há gente bem intencionada que deixa ficar cá fora o saco dos jornais. Assim eu e outros como eu podemos ler sem ter de pagar. E fui acompanhando essa história. Depois em casa como não há futebol o meu Francisco ouve os telejornais, passa o tempo a mudar de canal e por isso o nome Moody’s me ficou no ouvido.
- Percebi, o que é que a senhora tem a dizer?
Ela, olhou para todos os lados, não havia pessoas próximas e com voz baixa continuou:
-O meu marido jura a pés juntos que eles são pagos pelo Pinto da Costa.
Eu sou mais informada, tenho a certeza que esses especialistas recebem dinheiro dos ricos que estão cada vez, mais ricos. Emprestam 100 e no fim do mês querem 200 Euros, está a ver? Infelizmente também já conheço essa gente.
Deu mais uma vassourada,e olhando para mim, do alto do seu saber de experiência feito, deu-me mais uma lição.
- Percebo que o senhor lá no seu trabalho devia estar nalguma prateleira, pois parece pouco saber sobre o assunto. Não se envergonhe, ouça o que dizem os políticos e esqueça, como não vai entender nada, oiça os especialistas, como o nosso Presidente ou até aquele senhor mal-encarado e que quer bater a toda a gente, sabe quem é?
- Não Dona Maria são tantos!
- Bem eu não me recordo do nome mas o meu marido diz que ele é pior que o Bandarra.
Para não passar por ignorante, calei-me.
- O senhor vai continuar sem perceber, por isso é melhor ler um livro. Olhe, abriu a bata de trabalho, e do bolso da saia retirou um livro que me mostrou. Eu agora ando a ler este livro. Não o comprei, foi o meu colega que o achou no caixote de lixo, mesmo perto do prédio do primeiro-ministro. Quando acabar eu empresto. Ainda mal comecei mas acho que vou gostar. Mesmo se não falar de lixo, pelo menos cheira, não lhe parece?
Vi a capa e fixei o nome,” Portugal na hora da verdade”. O autor não conhecia, só consegui ver o primeiro nome, Álvaro.
Assustei-me, a Dona Maria andaria a ler algum livro do Álvaro Cunhal?
Agradeci muito a entrevista. “ Et pour cause” mudei de vida.

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