quinta-feira, 25 de agosto de 2011

UM DIA, UMA VIDA

2 – TEMPO DE SONHAR

O silêncio, a imagem de túlipas amarelas, a sua flor preferida, a melodia e as palavras, fizeram-na sonhar.
Recordava o tempo em que, muitos anos atrás, uma coincidência os reuniu.
Madalena frequentava um curso nocturno de aperfeiçoamento da língua inglesa. Na altura o seu sonho era partir e o destino Nova Iorque. Saíra da escola no momento em que uma chuvada caía sobre a cidade. Abrigou-se na escadaria do antigo cinema S. Jorge.
Ao seu lado, no meio de uma pequena multidão de pessoas surpreendidas pela trovoada, estava um homem inquieto que olhava com insistência para o trânsito, enquanto consultava o relógio. A cada momento ficava mais tenso e logo que se apercebeu que um carro abrandava junto ao passeio, respirou fundo, tentou abrir caminho empurrando entre outras pessoas a jovem Madalena que na beira do passeio, não aguentou o impacto e se estatelou na rua, mesmo na frente do carro que aguardava o impaciente desconhecido.
O homem ouviu as reclamações e insultos das pessoas que empurrara ficou lívido e sem saber o que fazer. Só repetia desculpas enquanto com o casaco que entretanto despira, procurava proteger da chuva o corpo da jovem caída.
Entretanto o motorista do automóvel saiu, abriu a porta da retaguarda, dizendo:
- Pode entrar senhor Engenheiro, com sorte ainda conseguimos chegar a tempo ao aeroporto.
O Engenheiro começou a dirigir-se para a porta aberta mas parou e voltou para trás, esquecera-se do casaco sobre os ombros da jovem. Apesar da insistência do motorista decidiu no momento que não iria abandonar o local sem prestar assistência à rapariga que acabara vítima da sua imprudência. A viajem ficaria sem efeito. Fez sinal ao motorista para seguir, já que tinha atrás uma fila de automóveis buzinando e protestando. Depois ajudou Madalena a subir os degraus e recolheram-se num canto mais sossegado.
Do bolso tirou um lenço e começou de forma desajeitada a tentar limpar o rosto e os cabelos da jovem.
Madalena tirou-lhe o lenço da mão, retirou a lama da face, sorriu enquanto murmurava:
- Escapei por pouco mas devo estar num estado lastimoso. O meu nome é Madalena.
Eu chamo-me Frederico, e sou o responsável pelo acidente. Diga-me que está bem, não tem nenhuma mazela que justifique a ida ao Hospital? Quanto ao aspecto não se preocupe, juro que está linda.
E foi assim que se conheceram.
A natureza fora a Madrinha daquele encontro, que iria mudar as suas vidas.
Foi à luz dos relâmpagos que haviam iluminado o céu e ao som dos trovões prenúncio da tempestade, que nascera aquele amor. E quinze anos depois, seria um forte trovão que a iria acordar para a realidade. O sonho lindo estava prestes a terminar.

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