3 – TEMPESTADE
Ficou surpresa com a violência da trovoada que passava naquele momento. Desperta da sonolência, viu as horas e levantou-se num repente. Eram nove da manhã.
Foi à procura dos filhos. Os gémeos não estavam no quarto, Madalena foi à sua procura e quando passou pelo quarto da filha mais velha, pela porta entreaberta viu uma cena que a enterneceu. Filipa, deitada com um irmão de cada lado lia uma história de encantar.
Reconheceu a história, tantas vezes a ouvira. A história do Pássaro Azul.
Não interrompeu aquele momento, foi para a cozinha para preparar o pequeno-almoço das crianças mas encontrou sobre a mesa uma bandeja com a loiça utilizada. Filipa já havia preparado e servido a refeição.
Estava feliz, sabia que podia contar com a filha mais velha, e isso dava-lhe uma grande tranquilidade, mas sem perceber porquê ficara apreensiva.
Voltou a abrir a caixa de mensagens do telemóvel. Tinha uma nova, de Frederico a dizer que se preparava para sair de Madrid. Verificou os detalhes a hora de envio fora as sete da manhã, hora de Espanha. Fez as contas rapidamente, cinco horas de condução significavam que Frederico chegaria antes meio-dia.
Respondeu à mensagem. Pedia muita atenção pois o tempo estava péssimo. Esperamos por ti. Assinou e remeteu.
Admitia que o estado de ansiedade que sentia fosse causado pelo temporal, mas não só. Depois de enviar a mensagem fez uma chamada. Para se tranquilizar precisava de ouvir a voz do marido. Mas o telemóvel não estava disponível. Deve ser do mau tempo, pensou, voltarei a ligar mais tarde.
Na sua vida já enfrentara momentos difíceis. Aprendera a pensar que na vida nada é eterno. Ela perdera a Mãe no dia em que nascera e fora do Pai e do irmão seis anos mais velho, que recebera o carinho e o amor.
Mas num dia que não mais esquecera, tinha dezoito anos de idade, frequentava a Universidade onde o irmão se tinha formado, o Pai aproveitou uma noite fria de Inverno para lhes contar algo que os marcou, para sempre.
Sentados na sala o Pai olhara-os nos olhos e dissera:
- A vida é para ser vivida com amor e prazer, senão não vale a pena. Sempre vos ensinei essa verdade. Eu, repetia o Pai com a voz firme, perdi a minha companheira, mas fui feliz em cada dia em que vivi, vendo-os crescer. Vocês foram a minha razão de viver e valeu a pena.
Mas agora estou doente, uma doença sem esperança, têm que aceitar que o meu caminho está perto do fim. Sei que estão preparados para a vida e peço-vos, respeitem o meu desejo, não deixem que me prolonguem artificialmente a vida.
Quero partir de corpo inteiro. Quero ser o princípio e o fim.
Vocês são mais do que irmãos, partilharam tudo o que eu tinha para dar. Quero que assim continuem. Escrevi uma carta com as minhas últimas vontades. Fui eu que a escrevi, é uma carta de despedida. Estará molhada de lágrimas mal enxutas mas o coração não me ditou todas as palavras que gostaria de vos deixar. Cada um encontrará numa linha, numa frase a amargura de partir mas também o carinho que vos deixo.
Agora o caminho é vosso, olhem sempre em frente, nunca para trás, mas pensem que na estrada da vida eu estarei sempre ao vosso lado.
Madalena chorou às escondidas. Sentia-se mal com as recordações. Voltou a ligar o telemóvel, sem sinal. Ficou parada olhando para as horas. Era quase meio-dia e não tinha notícias de Frederico. Foi para a janela, deu por um carro que estacionou perto. Estremeceu, era o irmão e a cunhada a caminharem para a sua porta.
Ficou lívida e no seu interior soltou um grito de desespero, Não, não pode ser.
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