Hoje, a história que vou contar é uma aventura vivida por alguém que já partiu, mas que deixou uma saudade imensa.
Era um homem inquieto e destemido, e este pequeno pedaço de chão nunca lhe fora bastante.
Quisera ir mais além, não porque precisasse de ganhar o sustento da família mas porque o mundo era um imenso desafio. Que não enjeitou.
Não teve a sorte de ficar financeiramente rico. Tinha todas as qualidades para ter sucesso mas uma lhe faltava e nunca a quisera encontrar.
Era um homem honrado, cumpria todos os compromissos e por isso recusara correr riscos com o dinheiro dos outros, mesmo depositado na Banca. Fora o seu pecado. Num tempo em que o carácter se moldava pela falta dele, onde alguns enriqueceram vendendo a alma ao diabo e enganando os outros, ele escolhera viver de cabeça erguida.
Não ganhou rios de dinheiro, outros do seu tempo o fizeram, mas no final até foi um homem rico. Teve uma família, mulher e filhos, que apesar do seu desejo de aventura foi sempre o porto de abrigo onde se acolheu.
- O SALÁRIO DO MEDO
Os cinéfilos conhecem o filme que deu nome à história que vou contar.
Era um dos filmes preferidos do personagem desta história, porque no seu argumento ele encontrara a memória dos desafios que enfrentara, naquele mesmo lugar, e em circunstâncias semelhantes. Sabia por experiência própria, o custo do salário do medo. Era a aventura dos motoristas de camião que nas estradas da Venezuela transportavam explosivos para serem utilizados no combate a incêndios em poços de petróleo. Era uma aventura só para destemidos, muitos se perderam nas ribanceiras de onde nem máquinas nem pessoas alguma vez foram retiradas.
Ainda hoje se conta que quem percorrer a estrada que vai do porto de Maracaibo até Caracas pode ver, no fundo dos precipícios, os sinais dos dramas e tragédias ali vividas.
O personagem desta aventura, vou chamá-lo de amigo, porque foi assim que sempre o considerei, também trabalhou conduzindo, a troco de um punhado de notas, um camião por caminhos impensados. Na sua aventura encontrou um amigo. Era Galego e por coincidência natural dum lugar que o Português conhecia bem. Era a serra pobre duma Galiza pobre, onde só as mulheres ficaram. Na verdade seu Pai, Galego filho daquelas terras, fugira para Lisboa e nem para matar saudades, alguma vez aceitara regressar às suas origens.
E o Português errante por vocação e o Galego emigrante por necessidade construíram uma forte amizade.
Até que, numa noite de sábado e como era habitual, os cortadores de cana vindos das fazendas das redondezas, desceram à cidade, de catanas debaixo do braço, afogando em aguardente de cana e rum os desenganos da vida.
Embriagados, podiam tornar-se uma ameaça, numa cidade, num País, onde a Polícia talvez fosse ainda mais perigosa.
Numa discussão de café e por razões nascidas do álcool, os cortadores de cana provocaram os dois amigos. Ambos eram valentes mas, prudentemente não responderam. Até que um camponês mais bebido, levantou o Machete na direcção dos dois amigos.
O Galego estava prevenido. Do bolso retirou e abriu uma navalha de ponta e mola e golpeou o agressor. Fez sinal ao amigo, saíram porta fora, correndo cada um para seu lado.
O meu amigo, perdeu um sapato durante a fuga e da janela da pensão onde se alojara, assistia à passagem do grupo de camponeses sedentos de vingança, com um sapato na mão a perguntarem a toda a gente pelo estrangeiro que o perdera. Ninguém soube ou quis dizer. O Português, o meu amigo, só saiu para apanhar um barco de carga que zarpava de Maracaibo para Santiago de Cuba.
Do amigo Galego nunca mais ouviu falar.
Para ele o sonho da Venezuela acabara de se extinguir, naquela noite de sábado.
Da aventura ficara o gosto amargo da desilusão e o filme para a recordar.
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