quinta-feira, 15 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE

Estou certo que as memórias estão interligadas com um fio muito frágil que é, afinal, o registo da vida.
Preocupa-me que esse fio se quebre, pois seria o fim. Porque a vida sem memórias será apenas uma simulação à espera do passo para o desconhecido.
Mas o meu fio condutor parece resistir e um qualquer facto do dia a dia é capaz de me levar a relembrar tempos, situações, lugares e pessoas.
Foi o que me aconteceu, ouvindo uma recente intervenção do Presidente Obama. Lembrei-me da esperança que a sua eleição trouxe ao mundo ocidental, sobretudo na Europa que, mesmo dividida e com problemas continua a ser o farol da civilização.
E inevitavelmente o tal fio transportou-me, mais de quarenta anos atrás.
Na sexta-feira, dia 22 de Novembro de 1963, em Dallas no Texas, o Presidente John Kennedy fora assassinado.
Não obstante o julgamento que a História haveria de fazer ao mandato do Presidente Kennedy, também ele representara para mim e para muitos da minha geração a ascensão de um jovem ao poder no mais poderoso País. Kennedy era a esperança da liberdade, depois de tantos anos de ditadura dum homem que transformara este País, numa imensa prisão. Com os tiros que mataram o Presidente mataram, também, a nossa utopia.

E naquele tempo naquele dia onde é que eu estaria?
Pois bem, naquele Inverno frio e chuvoso, estava em Mafra, no antigo convento mandado construir pelo Rei D. João V com o ouro do Brasil. Na altura era uma fábrica de Oficiais e Sargentos milicianos, que iriam combater a guerra colonial.
Eu era um deles.
No sábado, depois dos exercícios de aplicação militar, dada no campo de instrução previamente preparado, com túneis cheios de água, barreiras de arame farpado, charcos de lama viscosa e de cheiro nauseabundo, era a hora da formatura e da revista, antes de nos ser dada a permissão para o fim de semana.
O tempo de preparação era reduzido, muitas vezes não havia água nos canos, e a inspecção era muito rigorosa. Depois duma revisão à barba raspando a seco alguns pelos mais evidentes e por baixo da farda impecável e das botas previamente engraxadas e guardadas em lugar seguro e seco, o nosso corpo era um mar de lama. Qualquer movimento mais brusco podia fazer soltar algumas crostas e isso seria o fim da viagem e do fim-de-semana.
Mas naquele sempre desejado dia, iria ser diferente. Os tiros que mataram Kennedy, despertaram-nos para a inevitabilidade da guerra.
Muitos não haviam acreditado no sonho, partiram enchendo as ruas de Paris com uma nova onda de emigrantes, sem perspectiva de regresso.
Outros optaram por ficar, como eu.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1964, com mais companheiros partimos para instruir novos soldados, numa das belas Ilhas dos Açores, a ilha Terceira.
Éramos dezassete jovens oficiais milicianos e por ironia, a unidade que nos aguardava era o XVII Regimento de Infantaria. A nossa casa, a bela cidade de Angra do Heroísmo com o seu símbolo, de uma beleza telúrica, o Monte Brasil.
Ali ficamos, os dezassete no XVII.

< Conheci pessoas maravilhosas, ganhei muitas amizades e resisti ao destino que o comandante da Polícia nos vaticinara. Dizia ele na nossa apresentação: - Dezassete? Serão dezassete esperanças para as moças desta terra. Alguns ficarão presos nos laços do casamento. E assim foi para alguns. Eu mais jovem e inexperiente, sem meios de fortuna e sedento de aventura, resisti aos encantos e apesar da crise sísmica muito forte, passei quatro inesquecíveis meses naquela ilha de encanto. Depois, regressei e em Leiria fui encontrar-me com centenas de jovens com quem iria partilhar o meu destino. Dos dezassete apenas um encontrei durante a guerra. Outros partiram, fizeram a guerra e voltaram para resgatar as amadas da síndrome da insularidade. Outros terão morrido, não sei. Precisava de encontrar um vídeo, um poema, uma canção para relembrar aqueles dezassete. E escolhi um poema chamado “ Volver a los diecisiete” escrito e cantado por uma mulher que se tornou símbolo da música popular Chilena. O seu nome Violeta Parra e o intérprete da canção um rapaz do meu tempo, o Joan Manuel Serrat. Só o nome me remete para os meus companheiros, os dezassete de 1964.

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