
Confesso que andei a preguiçar. Não sentia prazer em escrever e sentia-me um pouco perdido. Sim, porque isto de escrever, mesmo que mal amanhadas histórias, tem que se lhe diga. Ás vezes as ideias nascem do nada outras vezes o ecrã fica teimosamente em branco.
Parei uns dias e voltei a vasculhar caixas com livros que guardara, e que nunca pensara voltar e ler.
Mas o nunca é muito tempo, e afinal dei por mim a sacudir o pó a tantos livros e reencontrei o prazer da sua leitura.
Escolhi temas simples, que pudesse ler sem me envolver demasiado. Entre eles, dois ou três livros policiais da velha Colecção Vampiro que fizeram a minha delícia enquanto jovem leitor. Escolhi dois dum novelista americano, autor que criou dois personagens que nunca esqueci. O seu nome, Frank Gruber, e os seus heróis eram dois amigos que viviam de expedientes e da venda na rua de livros que ensinavam um homem a ficar um Sansão. Johnny Fletcher, o cérebro e Sam Cragg os músculos. Como eu adorava aqueles dois, fugindo da Polícia e que, em não sei quantas páginas, acabavam por ser verem envolvidos em crimes de morte que o Fletcher tinha de resolver.
Escolhi também alguns livros mais elaborados sobre espionagem. Aquilo era outra coisa. Homens elegantes, atraentes, ao serviço de Sua Majestade.
Enfrentavam e venciam os inimigos, utilizando o charme e as armas mais exclusivas. Conquistavam as mulheres fatais que se atravessavam no seu caminho e, no final, o herói e a heroína ou vilã, conforme o guião, acabam sempre na cama. Eram livros que deram filmes excitantes que víamos com prazer e cheios de inveja. E foi com essa ilusão que eu fui criado. E os filmes do James Bond, bons ou nem por isso, ficaram no nosso imaginário.
Nos tempos da outra senhora, olhava para os espiões como uns mal amanhados e mal pagos funcionários, espreitando o pobre cidadão e denunciando aos chefes da Polícia Política os perigosos agitadores. Com o 25 de Abril de 74, desmantelada a PIDE, pensava eu que viveríamos em liberdade e nunca mais me preocupei e prestar atenção ao tipo bem enfarpelado que me olhava de soslaio ou fingia que lia um jornal enquanto me ouvia falar com os amigos, sobre a incompetência, o tráfico de influências, o clientelismo, a mentira repetida, dos nossos governantes e não só.
Até que um dia, caí na tentação de abrir um jornal e reconheci, afinal estava enganado.
Os espiões continuam a existir, estão no meio de nós.
E bem ao contrário do que se podia pensar, não serão funcionários com ordenados de miséria, mas senhores doutores e equiparados, bem vestidos e vendendo informações, a quem pagar mais. E a coisa parece que até é altamente rentável.
Mas na realidade eu acho que a história que tem enchidos páginas de jornais é tudo invenção. Porque não acredito na existência de serviços de informação num País onde tudo se sabe, menos onde pára o dinheiro do BPN, as comissões dos submarinos, o dinheiro pago a título de comissão dos negócios públicos, as massas pagas aos técnicos das Câmaras pelos Empresários da Construção Civil que com o seu labor edificaram as autênticas monstruosidades arquitectónicas que rodeiam as grandes cidades e já agora onde é que vai parar o dinheiro da lavagem da droga?
Se temos espiões tão bons como aquele senhor tão bem apessoado, respirando competência e respeito pela causa pública, que eu ouvi falar no circo da Comissão da Assembleia da República, não haverá razão para desconhecer aqueles pequenos pormenores. Ou haverá e eu não sou apenas burro e ignorante.
Por isso prefiro a ficção que me dá prazer à realidade que mete nojo.
A ficção ao menos dá-nos música e imagens atraentes, enquanto a realidade não passa de um sorriso de vergonha.
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