Confesso que sempre pensei que no fundo do baú das memórias, num espaço qualquer esquecido, haveria ainda algo que contar.
Eu sabia que tudo o que a vida me ensinara deixaria algum sinal, e que de todos os professores guardara ensinamentos. Tudo o pouco que sei a eles é devido, não só o que aprendi na escola e nos livros mas principalmente o que recebi das pessoas que detinham o muito saber de experiência feito.
Ensinaram-me que primeiro que tudo estavam as pessoas, e que os sentimentos de afecto são o sal da vida. Julgo que guardei bem a mensagem.
Mas sempre que fecho os olhos para me concentrar no passado longínquo, imediatamente a minha mente é assaltada por imagens que no dia a dia são plantadas em cada notícia, em cada conferência de imprensa, em cada debate e me saturam provocando mal estar e agonia. Assumem imagens difusas de figuras disformes, de aspecto larvar, sorrindo de orelha a orelha como se me chamassem de burro. E dói, sinto que elas, essas assombrações, têm razão.
Preciso portando de limpar aquele nevoeiro, dia a dia mais cerrado, abrindo os olhos para a natureza, ouvindo boa música, esquecendo tudo o que me rodeia. É tarefa difícil mas necessária sempre que sinto vontade de relembrar pessoas e histórias que me marcaram.
Hoje é manhã, não li jornais, não abri a televisão. É domingo o café está fechado e a agência noticiosa que ele representa está, portanto, de folga. Posso aventurar-me no labirinto, guiada por um finíssimo fio, tal como o que foi tecido por Ariana, e assim conseguir chegar àquele espaço onde guardei as mais profundas recordações. Fi-lo com todo o cuidado para não partir, não me perder e quebrar o encanto.
A história é sobre pessoas e é assim:
O VOO DA AGUIA
Era uma vez no tempo em que os animais falavam.
Sentado numa parede de suportava um terreno cheio de árvores enormes que o vento açoitava nos dias de inverno, uma criança chorava olhando para o horizonte.
As lágrimas que lhe corriam pelo rosto eram de desespero. O Pai havia partido à procura de melhor vida e tardava em voltar. Sem qualquer explicação, estas coisas não se explicam digo eu, sentiu que o Pai precisava de ajuda e chamava por ele.
Era muito pequeno mas estava disposto a tudo fazer para responder ao apelo. Preparou um cesto com alguns mantimentos, os poucos que conseguiu arranjar e esperou uma oportunidade para se meter ao caminho.
Por entre o ruído do vento, deu que no velho castanheiro, poisava uma ave de grande porte. Era uma Águia Real .
A Águia olhou fixamente o pequeno, que de cesto ao ombro se preparava para marchar, e perguntou-lhe o que ia fazer.
O pequeno destemido respondeu que ia em busca do Pai que, acreditava, estava ferido nas escarpas da serra.
A Águia disse:
- Se tu tiveres coragem eu levo-te no meu dorso ao lugar onde o teu Pai está ferido. Mas é um lugar muito distante, terei que voar muitas horas e não poderei poisar. Seria perigoso. Mas tu podes utilizar a comida do teu cesto para me alimentar. Concordas?
- Claro que aceito senhora Águia, estou pronto a partir.
E assim começaram a viagem com a ave a bater energicamente as suas longas asas e aproveitando a força do vento para pairar e recuperar forças. Então pedia comida.
O rapazito abria o cesto tirava um pão e dava-o para comer.
Passadas algumas horas a águia voltou a pedir comida. O pequeno abriu o cesto retirou um outro pão. Uma e outra vez mais a águia pediu alimento e o pequeno ficou com o cesto vazio.
Chorava em silêncio rezando para que a águia não pedisse comida. Mas a ave pairou novamente sobre uma encosta escarpada e pediu alimento. O pequeno soluçando respondeu que não tinha mais nada.
- É pena, disse a Águia, agora que estamos tão perto de encontrar o teu Pai, sinto que não terei forças para continuar voando.
- E o pequeno, arregaçando a manga da camisa, descobriu o braço direito, estendeu-o à águia dizendo:
- Olha amiga Águia come o meu braço, isso te dará forças para voar.
A Águia abandonou a cabeça. Não aceito, se tu estás disposto a perder um braço para encontrar o teu Pai é porque és um bom filho. O teu Pai é para ti mais importante do que o teu braço. É assim que deves sentir na tua vida. Descansa, em breve estaremos junto dele.
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