segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                                        Amadeo de Souza-Cardoso



1 – O DIA SONHADO

Era um dia diferente, um daqueles que marca uma vida e nunca mais se esquece. Barbara, tremendo de emoção conseguiu chegar à primeira fila para consultar a lista com as candidaturas aceites para o ingresso na Faculdade de Medicina. Ficou parada, sem reacção. O seu nome, simplesmente Bárbara Lopes, era o primeiro de uma lista com nomes mais sonantes, que cheiravam a dinheiro e a poder. Ela fora apenas a primeira classificada e tinha um nome tão plebeu como na realidade era.
Tinha dezoito anos de idade e transportava todos os sonhos de uma jovem. Conseguira, valera a pena tantas horas de estudo porque o caminho que sempre almejara estava agora aberto, e ela não podia deixar de o percorrer. Era o sonho da sua vida e o presente que devia à Mãe.
Correu para casa, precisava de abraçar a Mãe, compartilhar a alegria e o sentimento era tão forte que não cabia numa mensagem ou numa conversa de telemóvel. Ela sabia que aquele momento teria que ser vivido nos braços de quem lhe dera ânimo e força para lutar.
Era filha de Mãe solteira, nunca conhecera o Pai e também nunca procurara saber do seu paradeiro. Para ela bastava o olhar da Mãe, olhar sofrido e determinado mas que lhe dava todo o carinho. Era Mãe, confidente e a sua melhor amiga.
No caminho para casa foi revivendo alguns passos da sua vida. Bem que precisara da força da Mãe, porque na escola pública que frequentara era alvo da crítica das colegas e muitas vezes vítima de brincadeiras que deixavam marcas. Mas a Mãe sentia o seu estado de espírito, muitas vezes de revolta, mas sempre a encorajara e enfrentar os desafios.
Dizia-lhe que as brincadeiras de mau gosto só a atingiriam se ela lhes desse importância. Teria que ser forte deveria enfrentar os colegas de olhos nos olhos.
Bárbara nunca se julgara uma rapariga muito bonita, quando se comparava com colegas da mesma idade. Apenas porque não cativava os rapazes. Envergonhada, escondia-se atrás de uns óculos fora de moda e era muito conservadora no vestir. Todavia, sendo tímida e discreta, um olhar mais atento descobriria nela uns olhos verdes da cor do mar, o cabelo negro e longo preso por um laço fora de moda e um rosto bem desenhado. Ela fazia tudo para ser uma pessoa vulgar, passar despercebida mas na realidade era uma jovem muito bela.
Nascera e vivia numa urbanização perdida no meio do mundo de cimento, que a ganância dos construtores, apoiada na corrupção dos técnicos das Câmaras, haviam transformado a margem sul do rio. A sua casa, um modesto apartamento de três assoalhadas, que a Mãe comprara com as suas parcas economias e alguma ajuda que recebera da herança, aquando do desaparecimento dos pais, modestos agricultores no distrito de Beja, era o seu refúgio. Ali compartilhava com a Mãe as alegrias e dava luz ao sonho da sua vida. Ser médica.
Num bloco impessoal de apartamentos, onde os vizinhos mal se conheciam, se evitavam até, aquele pequeno espaço era quente e cheio de afectos e era nele que Bárbara queria abraçar a Mãe e murmurar, obrigada.

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