Maria Helena Vieira da Silva
3 – TEMPO DE TEMPESTADE
Madalena regressou a casa com a alma em pedaços. Parou na esquina da rua para poder limpar as lágrimas e recuperar um pouco do sangue frio. Sabia que Bárbara já estava em casa e não queria partilhar com ela a dor que a consumia. Acalmou os nervos, entrou e seguiu logo para a cozinha. Começou logo a preparar uma sopa e como era habitual descascou uma cebola para juntar aos restantes legumes. Só depois foi ao quarto da filha para lhe dar o beijo habitual.
Bárbara estava sentada estudando, deu pela Mãe, levantou os olhos e perguntou:
- Mãe porque choras?
Madalena cheia de coragem respondeu: - Chorar filha? Que ideia, tenho os olhos vermelhos porque a cebola que estive a preparar para a sopa era muito ácida e olha, o que me fez. Vá quando o jantar estiver pronto eu chamo.
Voltava para a cozinha quando ouviu a filha perguntar;
- Mãe diz o que se passa, hoje nem me perguntaste como correu o meu dia, e eu acho isso muito estranho?
- Nada, não se passou nada apenas tenho que ir vigiar o fogão pois deixei a sopa ao lume e tu sabes, os legumes não devem ser muito cozinhados. Depois falamos.
Com determinação lavou o rosto apagando os sinais das lágrimas e disfarçando as rugas de preocupação. Quando entrou na cozinha encontrou a filha sentada olhando-a com ar angustiado.
Não podia deitar tudo a perder, agora que a filha se aproximava do final do curso. Acreditava que conseguiria esconder o segredo ainda que tivesse que mentir. E foi o que fez.
Sentou-se junto da filha e contou:
- Tu percebeste, eu estava transtornada. Hoje o trabalho não correu bem e o chefe foi muito duro nas críticas que me fez. Ele está habituado que as mulheres lhe dêem atenção e eu não o fiz. Como represália transferiu-me de secção e isso significa ganhar um pouco menos.
- Mãe fez bem e eu orgulho-me ainda mais de ti. Uma mulher não tem que se sujeitar, tem de afirmar os seus direitos. Quando ao dinheiro, como eu irei começar a tirar a especialidade, terei algum tempo disponível e poderei dar explicações aos novos alunos. Portanto nós, como tu dizes, vamos conseguir.
Todavia no ar ficou a pairar uma nuvem. Bárbara não acreditava na versão que a Mãe lhe contara e começara a ficar preocupada. Olhava cada gesto, os sorrisos forçados, a falta da alegria que a Mãe sempre lhe demonstrara. Havia qualquer coisa mas não sabia a razão duma alteração tão profunda do temperamento de uma mulher lutadora, alegre e destemida que conhecera para uma mulher frágil, triste e abatida que agora via.
Foi-lhe difícil convencer a Mãe a ir ao Centro de Saúde para ser consultada. Havia sempre algum impedimento, porque o trabalho na fábrica estava atrasado, porque não podia faltar e porque se sentia bem, apenas um leve mal-estar pela mudança da idade.
Mas Bárbara não precisou de ouvir mais desculpas esfarrapadas. A Mãe estava doente e andava a trabalhar onde e em que condições ela não sabia. Mas ela já percebera que a fábrica tinha fechado.
Todavia a ida à consulta acabou por ser tempo perdido. A Médica, uma estagiária inexperiente, fez uma auscultação apressada, diagnosticou cansaço e stress e recomendou descanso e umas vitaminas. Madalena saiu do gabinete médico e comentou com a filha:
- Vês como eu te disse a Médica acha que eu estou bem. Só preciso de tomar umas vitaminas e marcou nova consulta para daqui a três meses, antes do início do Outono.
Bárbara sofreu uma desilusão. Afinal ser médico não era o que pensava. A colega que vira a Mãe não passava de uma funcionária que pouco importância dera ao doente e nem identificara os sinais que até ela reconhecia preocupantes.
A Mãe não contara à Médica toda a verdade mas esta também não quisera sequer perder tempo a pedir exames e análises laboratoriais.
Bárbara passou a vigiar a Mãe e assustou-se. Via a perda de peso, a cor baça dos olhos, mãos trementes e descarnadas, não eram um bom sinal. Algo de grave estava a consumir vertiginosamente a vida da Mãe.
Conversou com um professor em quem confiava e marcaram nova consulta, agora no Serviço do Hospital Central. Até lá Bárbara olhava com apreensão, as nuvens que anunciavam uma tempestade.

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