Claude Monet
2 – TEMPO DE BONANÇA
A Mãe fora empregada doméstica, mulher-a-dias, trabalhara na limpeza dum Hospital e por fim, conseguira após muita persistência, muita energia e alguma sorte, um lugar de operária numa fábrica de componentes electrónicos que havia começado a laborar perto de casa. Estava finalmente feliz, fazia um trabalho rotineiro mas muito exigente em concentração e destreza manual. O salário não sendo muito elevado, era compensado com as inúmeras horas extraordinárias que, perante encomendas urgentes todas as funcionárias tinham de fazer. E ela que sempre se habituara a dar o máximo do seu esforço encarava o facto com satisfação.
Terminado o último ano do Liceu, sempre com as mais elevadas notas, Bárbara só se candidatara à Faculdade de Medicina, por imposição da Mãe. Ela que assistira à luta, ao trabalho duro que a Mãe sempre enfrentara, achava que era tempo de ajudar. Queria trabalhar de dia e inscrever-se num curso nocturno que lhe desse uma oportunidade de trabalho. O sonho de cursar medicina, que a acompanhava desde as brincadeiras de criança, seria esquecido.
Mas a Mãe recusara e dissera,com a voz embargada, que a filha não tinha o direito de lhe roubar a esperança e a razão de viver. Toda a vida trabalhara para garantir que o futuro de Bárbara seria a concretização do sonho de criança. Nem mais nem menos frisara, pois enquanto eu tiver força e tu a vontade, conseguiremos.
A habituação de Bárbara à vida na Universidade não foi fácil. Morava longe, tinha que apanhar três transportes públicos antes de chegar ao Hospital de Santa Maria. Saía pela manhã ainda escura e voltava pela noite dentro. Todo o tempo livre que tinha durante o dia, era tempo de estudar até os minutos para uma parca refeição. Só a sua força de vontade e a sua grande capacidade de concentração e trabalho lhe permitiam manter um excelente comportamento escolar. As horas que passava nos transportes, era o único período em que se olhava a si mesmo, pensando no presente e imaginando o futuro.
Concorrera a uma bolsa de estudo, tinha manifesta debilidade económica e, em contrapartida era uma excelente aluna. E a bolsa foi-lhe concedida. Foi com mal contida alegria que contou à Mãe, o valor da bolsa era uma ajuda importante e Bárbara pediu que a Mãe aliviasse o seu trabalho, contratando ajuda para as limpezas semanais e tratamento da roupa. Mas a Mãe rejeitou a sugestão. E foi muito determinada na resposta.
Foi um período em que tudo se conjugara para que Mãe e Filha estivessem no caminho certo. Bárbara entretanto fizera amigos com quem estudava e com eles, só muito ocasionalmente saía para a noite, nunca escondera da Mãe as amizades mas, sem perceber porquê, nunca passaram disso mesmo, amizades.
Os anos iam passando, Bárbara mantinha o mesmo empenho e dedicação ao estudo e depois de muitas horas mal dormidas, de muito trabalho o objectivo estava à vista. Tinha vinte e quatro anos de idade, sentia-se realizada e o entusiasmo era tanto que nem dera que a Mãe tinha voltado a viver tempos difíceis.
A Indústria Automóvel, principal cliente dos componentes electrónicos foi-se deslocalizando para o Oriente. Salários ainda mais baixos, horários de trabalho sem controlo e a proximidade dos mercados consumidores, levaram ao progressivo encerramento das fábricas em Portugal e consequentemente ao declínio da actividade da fabricação de componentes.
E assim, após cinco anos de trabalho na fábrica, Madalena Lopes, fora chamada ao serviço de Pessoal.
Ela sabia o que isso representava, já se tinha passado com outras colegas, mas tinha uma ténue esperança, fosse apenas um período de acalmia por diminuição de encomendas. Afinal era mais grave. A Empresa ia encerrar.

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