Há dias em da alegria à tristeza basta um pequeno passo. E esse momento pode ser um relâmpago, um grito suprimido, uma criança com fome, um velho e remexer no contentor do lixo, um carro de alta cilindrada que passa quase atingindo o pobre homem, enfim coisas do dia a dia, cada vez mais do quotidiano de quem observa o mundo à sua volta.
Mas se é assim e afinal os dias continuam a ter 24 horas, o sol continua a nascer e a esconder-se, as pessoas continuam a sua lufa-lufa, correndo para o comboio ou fintando alguns condutores mais distraídos, para lhe passarem à frente, ganhando alguns metros do longo caminho que têm ainda de percorrer, o que é que mudou?
Parece tudo igual mas não é. São menos os carros a entupirem o IC19, mais gente a ocupar os comboios, mas as pessoas de olhos tristes e ausentes, não são deste mundo. Pelo menos do mundo que ontem viviam.
Hoje parecem zombies atordoados e vencidos. A vida roubou-lhes algo que nunca mais irão ter, a Esperança.
E não adianta olhar para os jornais, cada vez lêem menos e em casa quando regressam do trabalho, aqueles que ainda o conservam, deixam-se envolver pelas novelas onde as pessoas são bonitas, vivem amores e traições, prometem beijos e futuros radiosos.
Os serões são passados em silêncio, os Pais estão vergados às dificuldades, perderam a capacidade de lutar e entregaram-se. Os filhos, pequenos e grandes, crescem devorando jogos de computador e cada vez mais ficam sós, presas fáceis para desafios perigosos ou aventuras que não sabem como acabam.
E eu, que nasci e cresci pobre, numa casa sem água, electricidade, comendo do que a terra nos dava, as favas com a casca, as batatas cozidas só com sal, a açorda feita com pão duro e com poejos e um pequeno fio de azeite, que andei descalço, que assisti ao trabalho de sol a sol dos meus Pais e da minha Irmã mais velha, que com eles tremi de frio e suei de calor, o que é que tive diferente, ou melhor o que era diferente?
Não, o que era diferente daqueles anos do Estado Corporativo do Salazar e da Santa Madre Igreja, que condenou à miséria e à ignorância os pobres deste País, e este Estado Democrático em que vivemos, com eleições, com Deputados a defenderem o Povo, até, imagine-se, com um Provedor do Cidadão, que às vezes fala mas ninguém presta atenção pois ele não é nem nunca foi isento, agora que vivemos numa Sociedade nova, instruída mas com dezenas de milhares de jovens licenciados desesperando por uma oportunidade, que temos Bancos falidos, Bancos fantasma que encheram os bolsos a muita gente, que temos Hospitais, por enquanto, onde se circula por boas estradas, pontes, onde as pessoas têm uma duas ou mais casas, passam férias na praia ou na neve, que têm televisão e automóveis, a diferença resume-se a uma palavra, tão simples que só agora lembrei. VERGONHA.
Quando eu era criança e mesmo adolescente, a palavra tinha todo o sentido, porque naquele tempo, ser pobre não era VERGONHA mas:
Ter VERGONHA era não cumprir os seus compromissos;
Ter VERGONHA era não querer ajudar outros mais necessitados;
Ter VERGONHA era pagar o que se devia e olhar os outros sem baixar os olhos:
Ter VERGONHA era entrar de cabeça levantada, numa loja de penhores, entregando alguns bens para arranjar dinheiro para solver os compromissos, quantas vezes para o pagamento aos trabalhadores;
Ter VERGONHA era dizer que éramos Portugueses, aos quais só era permitido viver de Futebol, Fado e Fátima.
E hoje, tantos anos passados qual o significado da palavra vergonha? Sim, mesmo assim em letra minúscula?
Será que é uma palavra conjugada só pela negativa? Acredito, é essa a grande diferença. Porque:
-Hoje o que é Lei é não ter vergonha;
- Não ter vergonha de roubar o que é de todos:
- Não ter vergonha de mentir e enganar;
- Não ter vergonha de aparecer como paladino da verdade e da honestidade quem tem muitas histórias por explicar;
- Não ter vergonha de enriquecer vendendo favores;
- Não ter vergonha de deixar que os ladrões de colarinho branco continuem a acumular fortunas aparecendo sempre que lhes cheire a banquete e prudentemente se refugiem numa qualquer offshore;
- Não ter vergonha de ser acusado de um crime de corrupção e sair em ombros e sob aplausos;
- Não ter vergonha de deixar proliferar tantas lojas a comprar ouro, a maior parte roubado e com cumplicidades nunca esclarecidas;
- Finalmente não ter vergonha é não ter escrúpulos de ressuscitar a caridade institucional.
Porque vivemos em Democracia, temos afinal tudo, Governo, Tribunais, empresários e ainda restam alguns trabalhadores, mas não temos é um pingo de VERGONHA.
Ai quanto me dói ter memória!

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