Não, este título não foi baseado em qualquer acontecimento mais ou menos mediático e recente que tivesse ocupado o espaço Televisivo entre uma e outra novela. Ou mesmo que tenha atirado alguma novela para fora do horário nobre, o que seria, praticamente uma manobra de contra-informação. Quero fazer essa declaração prévia, pois não quero ser acusado de ser um detractor da sociedade justa, que um rapaz, simpático e com boa voz, nos veio anunciar para o resto das nossas vidas.
Aliás, se eu tivesse tido conhecimento prévio do acontecimento, teria adiado a história que me traz hoje à vossa presença.
Os Deuses que presidiram à criação do mundo como o conhecemos deixaram alguns exemplos, que ninguém seguiu, incluindo a vida maravilhosa de uma Sociedade Perfeita.
Mas eles sabiam que uma Sociedade assim, não poderia ser deixada ao livre arbítrio do homem, sob pena de se transformar num paraíso para alguns e um inferno para a maioria. Se alguma coisa os Deuses sabiam era que não podiam confiar no homem. E como se vê no dia a dia, e ao longo dos anos eles tinham razão.
Mas onde é que eu vou nesta lengalenga, quando a Sociedade que eu quero dar como exemplo é a dos Insectos, mais concretamente a Sociedade das Abelhas.
Esta sim é uma Sociedade Perfeita e eu conheci muito bem.
Não é sequer preciso procurar na Internet ou consultar os sítios do Ministério da Agricultura, ou ir ao facebook do Portas quando era agricultor. Qualquer dos camponeses que ainda restam, perdidos nos confins deste interior cada vez mais distante de São Bento ou de Belém, sabe a vida das abelhas.
Sabem, por exemplo que são um exemplo de uma extraordinária organização. Em cada colmeia existem mais de 80 000 abelhas operárias e uma só chefe, a Rainha.
A Rainha é a mãe de todas as abelhas e é a única fértil. Pode coabitar com os machos que não trabalham, só se dedicam a colaborar na procriação. Findo o seu trabalho fogem ou são mortos pelas abelhas operárias.
Eu na casa onde nasci e vivi tinha algumas colmeias e assisti à operação de retirar o mel. Ela preciso abrir o cortiço, tirar alguns favos de mel que depois eram espremidos até se encontrar o mel, há quem diga, o mais completo dos alimentos, o alimento dos Deuses.
Eu aprendi a fazer essas operações, mas ia com máscara de rede, lenços amarrados ao pescoço, luvas que encontrasse e mesmo assim acabava por fugir, chorando com as picadas dos insectos, que me iriam transformar o corpo em chagas dolorosas.
O meu Pai não utilizava qualquer protecção e nunca me lembro de o ver picado. Dizia-me que as abelhas sabiam distinguir os amigos e os inimigos. E dava-me outro exemplo, do seu compadre, também António, que tratava das colmeias e retirava o mel, com os braços e o rosto coberto de abelhas e nenhuma o picava.
Que o meu Pai pertencia ao grupo dos amigos eu não tinha dúvidas, desde que o vi, certa vez, pegar numa abelha quase afogada na água do tanque e com carinho, lhe dizer algumas palavras que não recordo, esperar que secassem as asas e ela pudesse voar.
Foi uma extraordinária prova de amor pelas abelhas o ser perfeito, duma sociedade perfeita.
Ele sabia que as abelhas operárias que faziam a polinização das árvores de fruto, que ajudavam a criar riqueza, viviam pouco mais de um mês, sempre a trabalhar e que na hora de morte iam morrer longe do cortiço, para não prejudicarem a cadeia de produção. Mas mesmo assim não ousou quebrar o ciclo da vida.
Oxalá os falsos profetas que mandam no mundo, não tenham informação sobre a organização da Sociedade Perfeita das Abelhas, caso contrário, lá teremos de ir morrer bem longe, para endireitar as contas do orçamento da saúde.
As abelhas morrem ao fim de quarenta dias de trabalho, e nós? Quem é que quer viver para sempre?


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