quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A FESTA

Contar uma história não é coisa fácil. E muito mais complicado quando se comete o erro de anunciar o que se quer fazer. E logo falando em aniversário toda a gente esfrega as mãos a pensar, temos festa.
Já deviam ter aprendido, pois ouviram ao longo da vossa vida anunciar tantas histórias de sucesso, tantas promessas de amanhãs risonhas, que se vieram a transformar em pesadelos, que deviam desconfiar.
 Eu vou contar uma história, bem antiga, que quase perdi nos caminhos da vida. Será uma história de crianças e será o meu contributo para a festa. Acredito nessas histórias, nas nossas histórias, porque nelas, nunca fomos traídos.
A casa onde nasci e vivi, era uma casarão no meio de uma encosta da serra, com vistas deslumbrantes para o vale e ao longe, o horizonte que escondia promessas dum mundo melhor. A casa tinha um terreiro, que foi palco de festas e casa de visitas de tantos amigos e por isso é o elemento central das minhas memórias. Ali, pequeno e descalço, aprendi a puxar uma carrocita que o meu Pai fizera com um caixote e umas rodas de madeira, e onde a minha irmã mais nova, agarrada a um gato marelo e branco com um nome invulgar, chiribiri, tinha o privilégio de se sentar e conduzir o irmão que a devia puxar, feito burro. Mas teimoso como era, o irmão, o burrito, não cumpria as ordens e ficava parado ou então corria tão depressa que o caixote se virava e a pobre miúda ficava estendida a chorar, com quanta força tinha, porque sabia que a vingança não tardaria. E o irmão acabava por levar umas valentes palmadas.
 Alguns anos depois, não muito, o meu universo ficou mais reduzido. A minha companheira de diabruras e brincadeiras foi para a cidade, para uma casa melhor, moderna, com todas as condições, coisas da vida, mas partira com lágrimas e deixando a saudade do irmão, seu companheiro de tropelias.
 Aquele terreiro que me traz tantas memórias foi onde aprendi a jogar à bola com um primo que já partiu, acabando os jogos sempre em discussão pois ele era mais forte, ganhava e eu não gostava de perder Aparecia o árbitro, normalmente a minha Mãe e dava o jogo por terminado. Pelo menos naquele dia.
Era bonito o terreiro onde cresci e brinquei. Num canteiro acompanhando uma das paredes da casa, cresciam rosas bravas, vermelhas como o sangue. Em cada uma das extremidades, num outro canteiro redondo, havia violetas em flor rodeando bonitas oliveiras. Por cima da porta de entrada, uma armação de madeira construída pelo meu Pai, onde se espraiavam as vides, as folhas e os cachos de uvas e nos dava a sombra nos dias de verão.
Eu recordo ainda hoje, as noites quentes do Alentejo, em que, apesar do cansaço, o calor não convidava ao leito. O meu Pai que se estirava num muro, olhando as estrelas e, penso, pensando as suas histórias; a minha Mãe cansada de tanto trabalho, ela que foi sempre a âncora da família, que albergou na nossa casa todos os que dela precisaram e a quem nunca soube dizer não; a minha irmã mais velha, que por isso foi a mais sacrificada a trabalhar, e apesar disso nunca perdeu a alegria a beleza e os sonhos; e eu que me imaginava conquistando o mundo a golpes de espada, desafiando inimigos e cortejando donzelas em perigo.
 A minha ideia para o texto de hoje era convidar para a festa todos os que naquele terreiro, brincaram, descansaram ou sonharam olhando o horizonte ou mirando as estrelas. Mas para além das recordações dos que já partiram, e esses estão sempre presentes, já só posso convidar dois que viveram aquele terreiro, naqueles dias tão distantes. A minha Irmã mais velha, mas só na idade, é por isso a guardadora das nossas histórias, a Irmã mais nova, a quem já perdoei as corridas que dei a puxar a sua carrocita. E o Irmão do meio, que chorou a escrever este convite.

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