segunda-feira, 3 de outubro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE



Fumar foi um vício que aprendi, às escondidas, e sem precisar de professores.
Admito que, teria sido por volta dos doze anos, numa altura em que olhamos para nós e nos vimos imberbes e desinteressantes. Era preciso dar um troque mascarando a realidade
Não eram tempos fáceis, o dinheiro era escasso e fumar, por uma questão de respeito tinha de ser às escondidas. Comprávamos cigarros à unidade, recordo ainda as marcas, Provisórios, ou cigarros em pijama, assim chamados na gíria, porque os maços tinham umas riscas verticais encarnadas e brancas, ou os Definitivos, uns cigarros muito magrinhos que eu chamava de saídos dos campos de concentração. Passados tantos anos, eu próprio me envergonho por ter sido tão ignorante e insensato a brincar com a tragédia do holocausto. Mas enfim, estávamos naquela idade em que tentamos ter graça e nada mais.
Estive algum tempo sem fumar, porque um Tio me ofereceu às escondidas, um cigarro dos que ele fumava, daqueles que, com as mãos nodosos pelo trabalho nos campos, conseguia enrolar em papel de mortalha. O cigarro a que chamava mata-ratos, não posso jurar mas creio que a marca do tabaco de onça era Kentucky, provocou-me um ataque de tosse tão violento que vomitei o que tinha e o que não tinha no estômago.
Foi uma lição que o meu Tio Carlos me deu. Durou algum tempo, mas pouco.
Na altura os filmes “ To have or have not” com Humphrey Bogart com a linda Lauren Bacall e o “Casablanca” com o Bogart e a inesquecível Ingrid Bergman, onde o actor fumava que se farta, mais me entusiasmaram a voltar ao cigarro. Ele era um exemplo para um adolescente como eu, idealista e sonhador e o cigarro fazia parte do mito.
A guerra, no meu tempo, foi um sorvedouro de cigarros. O tempo, as dificuldades, os sonhos desfeitos, os que se perderam, tudo se tentava esquecer, fumando e bebendo o que se arranjava, quase sempre cerveja tão quente como os dias que se viviam.
Já adulto o stress de uma vida profissional muito exigente, com viagens através de meio mundo, passei do consumo de um para dois maços diários de tabaco e pouco a pouco fui reconhecendo a necessidade de reduzir.
Resolvi tentar o cachimbo, dava um ar intelectual mas não resultou, não tinha sequer jeito para o cerimonial. Depois lembrei-me que muitas figuras que admirava fumavam charuto. Experimentei sem sucesso.


















Certo dia, já nos anos 80, alguém me ofertou uma caixa de charutos cubanos de uma qualidade superior. Como já tinha ensaiado e me tinha dado mal, levei e caixa a dois colegas que eu sabia serem apreciadores.
Foi uma festa para eles, eu sem saber havia oferecido o que de melhor havia no mercado e que custava muito dinheiro.
Enquanto se deliciavam com um dos charutos que eu oferecera, dizia-me esses amigos: “- Fumar um charuto é um acto de cultura e só acessível a quem tem poder financeiro. Fumar um charuto é uma demonstração de poder, mas sempre que vires um político a exibir-se de charuto na boca, desconfia.”
Eu sabia que os meus amigos conheciam o mundo dos negócios e registei o conselho.
Devia ter lançado um alerta. Vejam alguns dos exemplos. Tudo gente especial.













E onde estão os outros, perguntarão os meus leitores?
- E eu dou a mesma resposta que os dois amigos me deram:
- O charuto é um indício mas os tubarões ou não fumam em público ou fazem-no em clubes privados. Alguns deixaram o vício do tabaco, mas só esse, o do dinheiro e do poder, bem mais lucrativos e secretos, para esses refinaram a estratégia.
Pensei que melhor final deste texto poderia ser, por exemplo, A Quadrilha Selvagem. Mas o grande realizador apresenta um filme muito duro mas que, ficou aquém da realidade de outras quadrilhas.
Assim opto por mais uma cena para desanuviar.

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