segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O Carteiro que gostava de cartas de amor
1) HOJE
Pela primeira vez instalado atrás de uma secretária, que não era mais do que uma mesa velha, com gaveta, sentado numa cadeira de madeira algo desengonçada e num pequeno cubículo, com uma janelita virada às traseiras do edifício da Central de Correios da cidade do Porto, o que lhe dava alguma luz natural, Felizberto Silva, jovem de 21 anos, franzino de corpo, de tez escura como os camponeses e de olhos vem vivos, sorria naquele seu primeiro dia de emprego. Logo pela manhã tinha sido chamado ao Director, para as formalidades habituais. O Director era um homem rubicundo, sisudo e gordo e pouco amigo de palavras desnecessárias. Mas nos dias em que recebia um novo funcionário, gostava de convocar toda a gente e exibir a sua grande eloquência, o seu amor Pátrio e a sua devoção, quase canina ao grande chefe. E discursara:
Caros colaboradores,
Neste início de ano, mais um de intenso trabalho e redobrada vigilância, queremos saudar a chegada de mais um colega, jovem e a quem vamos acompanhar com o espírito de missão que é nosso costume. Damos as boas vindas ao sr. Felizberto Silva.
Temos de si, sr. Felizberto, as melhores referências. Sabemos tudo sobre a sua vida. Por isso aqui está, por nossa escolha pessoal, e lhe vamos a dar esta oportunidade de se juntar a nós, fiéis e dedicados servidores do Povo.
Não é trabalho para qualquer um. Sinto muito orgulho de ser responsável por uma equipa eficiente, trabalhadora e leal.
Como sabe, o nosso amado País tem inimigos espalhados pelo mundo. Na sua maior parte, porque têm inveja da paz e harmonia que o Estado Novo em geral e o nosso Presidente do Conselho em particular, trouxeram a esta abençoada terra, a este jardim que Nossa Senhora de Fátima escolheu, para dar a conhecer ao mundo, os segredos do céu.
Os maiores inimigos são aqueles que fugiram e que dedicam a sua vida a denegrir o bom nome do nosso amado Presidente, divulgando notícias incorrectas e inventando mentiras que só servem aos comunistas e seus aliados.
É nossa obrigação zelar pela Lei e pela Ordem impedindo que essas ideias subversivas, venham perturbar o bem estar do nosso Povo.
Todos somos poucos, para controlar o que se diz e o que se escreve, que não esteja conforme aos superiores interesses da Nação. O senhor acaba de ser aceite na família Lusitana, daqueles que amam o País e seguem com alma e coração as orientações do nosso Presidente do Conselho.
Tenho a certeza absoluta de que podemos confiar em si. Porque nunca admitiremos entre nós quem não partilhe as nossas ideias e não esteja disposto a pôr cobro a toda e qualquer actividade ilícita. Mesmo que isso implique o sacrifício das nossas vidas, nós seremos a muralha que manterá longe as ideias dos comunistas e seus apaniguados.
O senhor vai ter, portanto, funções de grande responsabilidade. Pelo seu passado e educação, passarão por si todos os casos duvidosos que os seus colegas não se sintam à altura de decidir. O princípio orientador é só um. SERVIR, o Povo e as Autoridades, tendo presente que os Correios são um bem essencial para levar e trazer notícias mas nunca servirão para transmitir propaganda e maus costumes que nada importam ao nosso Povo.
Tudo o que lhe parecer suspeito, em termos de escrita, endereços falsos, encomendas de livros, etc, deverá ser imediatamente destruído. Mas não posso deixar de recomendar, especial atenção aos livros, que são portadores de ideias que nada dizem ao nosso bom Povo. Este, recebe toda a informação que precisa nas escolas oficiais e nas catequeses e outras prédicas dos servidores da Santa Madre Igreja.
Felizmente, o senhor não viveu nos tempos da anarquia e da desordem social, que tanto flagelaram este Povo. Se hoje reina a harmonia e a paz, deixaram de existir atentados, greves e outras malfeitorias, tudo se deve ao Dr. SALAZAR, esse homem que a Divina Providência nos deu, e que com o desvelo de um Pai salvou este País. Um homem que não dorme nem descansa, velando para que a velha ambição de alguns e os novos perigos, não venham a destruir o que com tanto suor e saber foi erguendo. Um Estado Novo.
Tenho dito. Tinha sido o discurso mais longo que o Director, alguma vez havia feito. Escrevera-o uma vez e gostara tanto de se ouvir, naquele tom patriótico, feito de heroicidade e de abnegação, que, com uma ou outra pequena adaptação, o lia da mesma forma empolgante, a todos os carteiros que com ele iam trabalhar.
Quando acabou, com a respiração ofegante, o suor gotejava pelas têmporas e escorria para o colarinho impecávelmente branco e engomado, que até era mudado todos os dias, pelas mãos bem Portuguesas duma serviçal analfabeta que ele contratara na aldeia, para ajudar a sua excelsa Esposa e a quem pagava com alojamento, num quarto do tamanho de uma cama e comida, os restos como é evidente, e algum dinheiro, pouco, pois ela nem o sabia contar.
Enquanto o senhor Director lia o seu discurso, Felizberto, abanava a cabeça em sinal de concordância, aplaudia mesmo uma ou outra passagem mais inflamada, mas na realidade não estava ali. Percorria na sua memória, o caminho, até àquele dia em que tomava posse oficial, como carteiro. Estremeceu, porque o colega da Secretaria, lhe estendeu o Livro que deveria assinar, declarando não pertencer a qualquer associação ou partido político que fosse contra o Estado e ou os seus representantes.
Assinou sem ler, recebeu os abraços e saudações dos colegas, o cumprimento do senhor Director e voltou para o seu pequeno cubículo, onde iria passar grande parte da sua vida. Assim pensava.
E foi a sua vida passada que desfilava agora na sua memória.
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