3 – AS LUZES DA CIDADE
E foi assim que Felizberto se viu na camioneta, com destino à grande cidade, com os olhos brilhando de entusiasmo, admirando o grande rio e as suas pontes.
Corria o mês de Setembro. O tempo estava agradável pelo que andou a
vaguear pela cidade durante horas. Era outro mundo. Parava com frequência a ver as lojas, o movimento das pessoas atarefadas no seu dia a dia, perdia mais tempo a ler os títulos dos livros nas montas das livrarias e sentia que tinha muito que aprender. Vivera fechado entre as serras e os altos muros do Seminário, e via agora um mundo novo que se lhe oferecia. E que tinha de percorrer.
Foi encontrar o tio Manuel, a tia Beatriz e a prima Deolinda que habitavam um pequeno mas simpático apartamento para os lados de Campanhã. Não conhecia qualquer um mas foi aceite como o familiar que decidira mudar de vida.
O tio Manuel, para evitar as más línguas da vizinhança, entendeu por bem que o melhor seria o Felizberto alugar um quarto só para si, não muito longe, numa casa que recebia hóspedes e que ele garantia ser gente séria. Depois vai ter te procurar trabalho até que o Senhor Director aceda ao meu pedido e o admita como carteiro.
Ficou tudo arranjado e no próprio dia Felizberto dormiu numa cama pequena mas que ficava bem ao lado da janela para a rua. Estava bem contente.
Não lhe foi difícil arranjar trabalho e escolheu o de ajudante numa tipografia no centro da cidade. Não ganhava muito bem mas era um bom ambiente e a tia sempre lhe ia metendo algumas moedas no bolso do casaco, quando aos domingos ia lá a casa e até lhe arranjara a roupa que entretanto deixara de servir ao Tio.
Trabalhava já há algum tempo, colaborando na impressão de livros, folhetos, revistas, etc e gostava do que fazia. Porém, o Senhor António que era a patrão, entendeu que ele, pelo nível de conhecimentos que demonstrava, seria mais útil a trabalhar com o sr. Fernando, encarregado de uma livraria não muito longe e que também pertencia ao mesmo dono. E assim Felizberto mudou, com agrado, de funções e até beneficiou dum aumento do salário.
Passou a viver com os livros e a sentir o fascínio pelo conhecimento que eles encerravam e que queria ir descobrindo.
Quando mais estava a gostar do trabalho, recebeu a informação do Tio que, no início do ano, iria ser admitido nos correios e que para agradecer o interesse, já mandara vir da terra dois presuntos bem curados, que iriam os dois entregar a casa do senhor Director, por altura do Natal.
Felizberto não ficou particularmente agradado com a notícia. Mas foi o patrão que ao saber a novidade, lhe recomendou para aceitar o lugar nos correios.
- Sabes Felizberto, o trabalho é leve, tens um futuro garantido, enquanto que o emprego que tens hoje pode desaparecer de um dia para o outro, por razões do mercado, as pessoas não têm dinheiro para comprar livros e a maior parte não sabe ler, mas também porque em qualquer momento, a Pide pode decidir que eu sou um perigo para a Sociedade e fechar-me o negócio. Aceita o meu conselho, mas não te percas no mundo que vais encontrar. Continua a gostar de livros, porque é neles que encontrarás a sabedoria. Mas não te esqueças que as pessoas também são importantes e que devemos respeitar, os seus direitos. Se não o fizermos ficaremos iguais aos esbirros e ditadores que nos governam. Tem muito cuidado com o que leres e sobretudo não digas a ninguém o que andas a ler. Quando precisares de ajuda, podes procurar-me, mas antes de entrares presta atenção a qualquer pessoa que esteja por perto a fingir interesse por qualquer coisa na montra ou na porta. Se vires, disfarça não entres e volta outro dia. Sabes, eu sei que estou a ser vigiado, e mais tarde ou mais cedo algum polícia mais zeloso, arranjará maneira de me prender.
Felizberto, agora sentado no seu exíguo gabinete, depois de ter tomado posse e ouvido o que o Director esperava dele, apercebeu-se de que a vida dera uma volta. Não seria um membro do clero, beneficiando de privilégios especiais e passaria a ser um elemento do Estado, com a incumbência de espiar outros e denunciar quem não lhe agradasse.
Lembrava a esperança que o patrão lhe transmitira, dizendo que o Salazar teria de abandonar o poder, mais tarde ou mais cedo, pois as potências democráticas não iriam tolerar, por mais tempo, a existência de uma ditadura.
Pobre amigo, como estava enganado. Não passara muito tempo, Felizberto dava ainda os primeiros passos no trabalho, quando resolveu voltar à livraria do sr. António para comprar livros. Chegou tarde, pois foi avisado que o pobre homem fora preso e ninguém sabia do seu paradeiro. Ele que tinha tanta esperança num futuro livre, não viveu o suficiente para o ver.
Felizberto aprendeu com um carteiro velho e trôpego, a utilizar as ferramentas que encontrara na secretária. Serviam para abrir cartas suspeitas, ao vapor de um tacho com água a ferver, aprendeu como as devia voltar a fechar e quando deveria utlizar o carimbo” Visado pela Censura” na correspondência inofensiva que naturalmente iria abrir. O velhote ensinou-lhe que de vez em quando deveria levar ao Senhor Director algumas cartas ou encomendas, pedindo a sua opinião. Sabe Felizberto, isso fá-lo sentir uma pessoa ainda mais importante e como é pouco mais do que analfabeto vai deixar ficar tudo ao seu critério. Aproveite e deixe seguir.
O novel carteiro aprendeu com o saber de experiência feito daquele velhote, que a adulação e a lisonja, são armas poderosas para quem quiser triunfar na vida. Mas isso já ele aprendera no Seminário.
- Pois meu amigo, dizia o senhor Alberto. Quando eu assisti ao entusiasmo do Director pela sua admissão, cheguei a duvidar de si. Olhe, levo mais de dez anos neste serviço, já passaram pelas minhas mãos muitas cartas e encomendas, algumas bem suspeitas, mas nunca, nunca abri nenhuma e todas seguiram o seu caminho. De vez em quando levo ao Director meia dúzia delas, só para ele ter a prazer de as mandar seguir.
Enquanto conversavam sobre o trabalho, Alberto, o velho carteiro, encorajava Felizberto a estudar. Sabes, vais à universidade vês os cursos disponíveis e vê também as tuas equivalências. Mesmo que tenhas de fazer exames de admissão, terás muito tempo para estudar pois já viste que o nosso trabalho se faz com uma perna às costas.
- Prometo sr Alberto que vou tratar de seguir o seu conselho. Mas sabe, eu vim dum deserto, estive doze anos encerrado no seminário, também preciso de viver a vida. Preciso de ler, de conversar, de ir ao cinema e ao teatro, de ter amigos da minha idade.
- Claro, respondeu o velhote, tens esse direito mas a Universidade também serve para tudo isso. Até para arranjares uma namorada, vais ver.
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