quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

9 - SINAIS

E a procura, desesperada, das cartas que tanto o impressionavam, tornou-se doentia. Ficava eufórico e perturbado ao mesmo tempo. Estava a perder o controlo das suas emoções. Para isso contribuiu mais esta carta dirigida a Louis Aragon, rue de Montparnasse, 36 – Paris. A remetente era Sofia Melo, da Rua sá da Bandeira, sem número, na cidade do Porto.

Meu amor,

Estou só, mas estes são os melhores momentos da minha vida. Os meus Pais e a minha irmã foram de férias, eu fiquei. Só irei passar uma semana a casa de uns amigos no Douro pois para além da paisagem fazer bem à minha alma, estarei com uma senhora muito simpática, que sempre me tratou com carinho. Ela conhece um pouco da história do nosso jovem amor e prometeu ir tentar ajudar ao nosso reencontro. E eu acredito.
Na noite passada fui passear à nossa praia. Estive sentada a ouvir o bramir das ondas, tentando destruir os blocos de pedra que colocaram como obstáculo.
O mar luta para seguir o seu caminho. Não desiste e tanto porfia que sempre alcança. Tomara eu ter feito o mesmo e ter galgado os muros com que me cercaram.
A noite está escura. No céu brilham as estrelas. São as mesmas que testemunharam o nosso amor e selaram as nossas promessas. Lá do alto, vigiam a cova de areia onde enterrámos os nossos sonhos. Noite, minha amiga e companheira, leva-me para junto de quem amo.

Noite

Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
(Sophia de Mello Breyner)

Recebi, pelo portador do costume, a encomenda com livros e o exemplar da revista com as tuas reportagens. Fiquei feliz de ver a tua foto no jornal, com o teu cabelo revolto e já grisalho, as rugas da vida talhadas no teu rosto. Mas fiquei muito preocupada com a força dos teus artigos. Vi neles uma denúncia mais do que uma reportagem; uma acusação mais do que um relato mas sobretudo uma revolta e um grito de alerta. Que, meu amor, como bem sabes, ecoará no vazio dos que se recusam a olhar o futuro.
Guarda para ti esse sentimento, não deixes que ele vá corroendo a tua alma. Vê o futuro como sonhámos, naquelas noites intemporais. Para que um dia possamos caminhar através do mistério que se embala nos pinhais e no mar.
No nosso mar.
Vivo com uma réstea de esperança na promessa que me fizeram. Quem sabe dá certo e um dia estaremos juntos, finalmente juntos.
Até lá espera por mim. Não vou tardar.

UM DIA

Um dia mortos, gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

(Sophia de Mello Breyner)

M.
Porto, 25 de agosto de 1954


Felizberto sentia-se, carta a carta, mais perdido. A realidade e a ficção não as distinguia, porque dentro de si, havia o conflito entre o bem e o mal. Um, era o jovem idealista e natural que um deixara a sua terra para encontrar um mundo melhor; outro era o adulto que abandonara os ideais, e se perdera.
O primeiro queria acabar de vez com a doença que o infectara. O segundo precisava de mais tragédia e dor para se alimentar.
Cada carta que abria, cada texto que lia, cada poesia que gritava, iam alargando a ferida sangrenta que já sentia. O sofrer era como um fogo interior, um tormento que se cumpria na solidão da sua existência.
Não se conseguira libertar do vício, mas, pouco a pouco, ia tentando colocar mais distância.
Mas quantas vezes o destino determina o caminho. Já não perdia tempo a procurar as cartas. Nem era preciso, parecia que alguém as colocava à sua frente e lhe segredava” porque esperas abre e lê”.

Sem comentários:

Enviar um comentário