7 – A TERCEIRA CARTA
Felizberto, embora tivesse poucas dúvidas sobre a autora da primeira carta, não resistiu e foi à Rua do Bolhão espreitar o número 208 r/c Esq. O número existia de facto, mas a casa só tinha primeiro e segundo andar.
Andou por ali a cirandar, procurando passar despercebido, mas viu num relance uma mulher que iria jurar, era a Maria Madalena.
Mudou logo de caminho porque não queria que ela o visse a rondar aqueles sítios. Deixou de ter dúvidas. O casal de apaixonados utilizava nomes e endereços falsos.
Passou algum tempo sem localizar a resposta. Ficou preocupado pois pensou que Maria Madalena, afinal o tivesse visto e tivesse mudado a estratégia. Mas não desistiu procurando cada dia com mais afinco.
Sem nada de especial, mas como se fora um prenúncio, olhou algumas vezes para uma carta também para Paris. O nome do remetente não conseguia ler mas a morada era na Rua de Santa Catarina, nem número. O destinatário em Paris era Ricardo E. Basoalto, Rue de Rivoli, 309 – 1º. Esq. Bem esta não tem nada de suspeito, pensou, todavia vou abrir.
Ficou surpreendido porque esta carta começava com um poema. Começou a ler e logo adiante rejubilou, afinal era mesmo o que procurava.
FANATISMO
“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa ...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...”
(Florbela Espanca)
Amor, meu Amor, minha Vida
Estava a ler poemas de amor e de saudade quando recebi a tua carta. Deles escolhi este, porque para mim já nada importa na vida. Tu, só tu és o meu Deus “ Princípio e Fim”.
O tanto que chorei, secou a minha alma. Nem uma lágrima restou.
Li as tuas desditas a tua dor o sofrimento a desesperança. Doeu-me muito, tanto que nem sei como te dizer.
Guardo tudo no mais fundo do meu pobre coração. Que apesar da dor e da saudade, ainda vai batendo, batendo até que se canse de esperar.
Estou perdida, sem rumo, sem destino, no meio da tempestade. “Tudo em mim foi naufrágio”.
De tanto te querer já nem sei se te quero. Receio que para ti eu seja apenas uma miragem, reflectida num espelho estilhaçado pelos desgostos da vida.
E eu, aqui fico, onde sempre estive, deste lado do muro que não caiu e já sem forças para abrir os meus braços e te acolher, invejando as aves que passam de regresso aos ninhos. “Tudo em mim foi naufrágio”.
Quero acreditar, sim ainda quero, que neste mundo ou no outro havemos de nos encontrar e, e depois, até em teus braços morrerei.
Pois tu és “Princípio e Fim”.
Porto, 7 de Julho de 1954
M.
Felizberto respirou fundo. Estava tão feliz. Nem se dava conta de que a sua vida se limitava a espreitar a vida dos outros. A tragédia e a dor daqueles dois seres eram o seu alimento. Como um vampiro. Pobre Felizberto.
O Director chamou-o ao gabinete, para lhe dizer que o mês de Agosto se avizinhava e logo o seu habitual período de férias. O Felizberto deveria aguardar pelo seu regresso já que queria que fosse ele a desempenhar as funções.
- Sabe Felizberto eu vou passar a primeira quinzena nas termas do Buçaco. Fazem muito bem à saúde de Dona Leocádia. Mas vamos só os dois. A Maria da Graça vai para Lisboa, mais própriamente para o Estoril, passar todo o período em casa de uns amigos em quem temos toda a confiança. Só assim poderia ser, como calcula. A Maria Madalena, prefere ficar na nossa casa no Porto e só irá por uma semana juntar-se a nós, numa quinta no Douro, para onde me fomos convidados por amigos, com altas funções no Governo. Mas eu só me sentirei tranquilo se você assumir as minhas responsabilidades.
Felizberto respirou fundo e garantiu ao Director que ele não se ausentaria para férias sem o seu regresso.
Na verdade nem lhe apetecia ir de férias. Tinha vontade de ver a Mãe mas receava que ela, com a argúcia de quem tão bem o conhecia, visse um filho diferente do que partira. Escreveu, dizendo que provávelmente só poderia ir de férias em finais de Setembro, por razões de trabalho e de estudo. E continuou à espera de correio que alimentasse o seu viver.
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