6 – A SEGUNDA CARTA
Com crescente ansiedade foi aguardando a resposta. Redobrou de atenção e via ao pormenor toda a correspondência vinda de França e particularmente de Paris. Não era muita, naqueles anos e por isso não lhe foi difícil identificar uma carta remetida por André Breton. O mesmo endereço, e como destino Maria Carneiro, por coincidência domiciliada na Rua do Bolhão, 208 r/c esq. Porto. Era, apostava a resposta . E teve razão.
Com os mesmos cuidados abriu e leu:
Meu amor tão longe e tão perto
Já lá vai tanto tempo, é verdade. Mas eu sinto que foi ontem que me despedi de ti. Por entre lágrimas e beijos, trocámos juras de amor eterno. E é isso que eu ainda sinto. As forças que impediram o nosso amor, levaram-me ao exílio, mas tu foste sempre a minha estrela. Mesmo nos momentos trágicos por que passei, foi a pensar em ti que lutei, para sobreviver.
Quando fugindo da Polícia entrei em Espanha e, levado pelo romantismo e idealismo dos dezoito anos, me juntei aos que lutavam pela liberdade, estava bem longe de pensar que seria uma viajem tão longa. Atravessei a Espanha de caneta na mão e com a cabeça a fervilhar de ideais e de sonhos. Sonhos que morreram nos campos de refugiados em França, onde fui internado, juntamente com milhares de outros românticos, quando os fascistas tomaram a Catalunha. Passámos frio e fome, gritámos por ajuda e o mundo não ouviu os lamentos.
Fugi para Paris, a cidade dos nossos sonhos, mas cheguei só a tempo de ouvir as botas cardadas dos lobos nazis, desfilando pelos Campos Elísios.
Sem documentos, sem amigos, andei fugido dormindo ao frio e à chuva, misturado com a legião de refugiados que a guerra criara. Encontrei três amigos jovens como eu. E os quatro, dois judeus franceses, um refugiado belga e este pobre Português errante, tentamos a aventura de fugir para o País Basco, atravessando os Pirinéus. Não correu bem. Os meus companheiros ficaram enterrados nos desfiladeiros medonhos que cruzámos. Eu fui salvo por guerrilheiros bascos e remetido de novo para Paris.
Lá encontrei pessoas que me ouviram e tiveram pena de mim. Deram-me abrigo. E foi dali que, finalmente, te consegui escrever uma pequena carta, para te mostrar, que nem o sangue, nem as balas, haviam conseguido apagar a tua imagem.
Porém, e como tantos outros, naqueles dias de chumbo, acabei na prisão, ouvindo histórias de horror, gritos dos torturados, lamentos de jovens e de velhos. Recordo aqueles dias, perdido entre tantos infelizes, sem caminho, sem futuro e sem razão de viver, senão a esperança de voltar aos teus braços. Mesmo agora, e já passaram tantos anos e tantas coisas vivi e testemunhei, só guardo para além do medo, a lembrança de um velho que, sangrando das torturas cantava para os seus algozes a Marselhesa.
E mesmo ao ser fuzilado, por uma vez se levantou e gritou viva a França livre.
Quando fui libertado e voltei à casa que me abrigara, esta estava vazia. Os vizinhos contaram que era um casal de judeus franceses e que teriam viajado. Mais tarde, bastante mais tarde, soube a que viagem se referiam. Mais uma vez procurei ajuda e quando a encontrei, um simples quarto numas águas furtadas de onde quase não podia sair, escrevi a carta que mais me doeu escrever em toda a minha vida. Sentia-me tão só e abandonado que desesperadamente, admitia como único caminho, a morte redentora.
Lembrei-me da coragem do pobre homem que vi morrer cantando. Senti que como ele, teria de recomeçar a viver e a lutar pelo que acreditava. E a única coisa em que acreditava era no nosso amor, nas nossa juras e promessas, nas nossas esperanças. Foste tu que me salvaste.
Foste o bálsamo que acalmou a minha dor.
Esperei, oh como esperei que no fim da guerra, no meio do rebentar dos foguetes, surgisse o canto de uma trombeta que derrubasse o muro que ergueram à nossa volta.
Mas o muro continuou. Jericó não se repetiu.
As nossas memórias , os nossos segredos, o nosso amor sofrido, foi o que nos restou a que nos agarrámos e que nos sustenta. Essa força foi de ti que a recebi. As tuas cartas foram o meu alimento, o meu refúgio. Nelas ancorei o meu desespero.
A CANÇÃO DESESPERADA
Emerge a tua lembrança desta noite em que
(estou.
O rio junta ao mar o seu lamento obstinado.
Abandonado como os cais da madrugada.
É hora de partir, ó abandonado!
Sobre o meu coração chovem frias corolas
Ó porão de escombros, feroz caverna de
(náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti bateram as asas os pássaros do canto.
Tudo devoraste, como faz a distãncia.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi
(naufrágio!
Era a hora alegre do naufrágio e do beijo
A hora do estupor que ardia como um farol.
Ansiedade de piloto, fúria de mergulhador cego,
Turva embriaguez de amor, tudo em ti foi
(naufrágio!
Na infância de névoa a minha alma alada e
(ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Eu fiz retroceder a muralha de sombra,
caminhei para além do desejo e do acto.
Ó carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
A ti nesta hora húmida evoco e faço canto.
Como um copo albergaste a infinita ternura,
e o esquecimento infindo estilhaçou-te como um
(copo)
Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher de amor, teus braços me acolheram.
Era a sede e a fome, e tu foste uma fruta.
Era o luto e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como pudeste conter-me
Na terra da tua alma e na cruz dos teus braços!
O desejo de ti foi o mais terrível e curto,
O mais revolto e ébrio, o mais tenso e ávido.
Cemitério de beijos, ainda tens fogo nas tumbas,
Ainda as uvas ardem debicadas por pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.
Oh a cópula louca de esperança e de esforço
Em que nós nos juntámos e nos desesperámos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavras que quase nem nasciam nos lábios.
Foi esse o meu destino e nele viajou a vontade,
E nele caiu a vontade, tudo em ti foi naufrágio!
De tombo em tombo ainda tu ardeste e
(cantaste.
Marinheiro de pé na proa de um navio.
Ainda floresceste em cantos, ainda rompeste em
(correntes.
Ó porão de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido mergulhador cego, desventurado
(fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como o cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.
Pablo Neruda - (Tradução de Fernando Assis Pacheco)
Andei a arrumar e a reler as tuas cartas. Aproveitei para vasculhar papéis que guardei durante estes anos. Encontrei uma revista que foi a única coisa que salvei na minha fuga. Era preciosa. Chama-se #Caballo Verde# e foi criada no breve tempo da República Espanhola. Nela tinha guardado o poema que hoje te mando.
E faço meu o grito de angústia e desespero.
É a hora de partir.
Adeus minha deusa, meu sol.
A.
Paris, 15 de Junho de 1954
Felizberto estava tão feliz que até as faces ganharam cor. Quantas vezes leu, nem sabia, mas foram muitas e algumas lágrimas reprimiu.
Voltou aos cuidados que aprendera, guardou cópia para si e deixou seguir a carta.
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