sábado, 23 de outubro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

4 – A FAMÍLIA CARVALHO e MORAIS

Como já tinha decidido ir estudar e já tinha as informações necessárias, resolveu pedir autorização ao Director. Sabia que ele iria apreciar tal gesto.
Quando entrou no gabinete, com as mãos atrás das costas em sinal de respeito, olhando para o retrato em ponto grande do Dr. Salazar, bem visível por cima da secretária, confessou com humildade que não era sobre o serviço que queria falar mas que precisava do conselho avisado e amigo do Senhor Director. Não sei o que o senhor pensará do meu pedido mas quero pedir-lhe autorização para entrar na Universidade, pois penso que o que lá aprender poderá ser colocado ao serviço do bem comum. Ao mesmo tempo e porque estou hesitante gostaria que o senhor me aconselhasse o curso mais adequado.
O Director, vísivelmente agradado, levantou-se da secretária caminhou na direcção de Felizberto, de braços abertos dizendo: - Nem sabe caro colaborador a alegria que me deu. Claro que concordo com a sua ida para a Universidade mas deixo o curso ao seu critério. Fosse eu e teria escolhido Direito, como homenagem ao meu modelo, e apontava para a fotografia, mas teria de ter ido para Coimbra. Mas o espírito de sacrifício que nessa altura conturbada era pedido aos servidores da causa pública, impediram que eu lhe tivesse seguido as pisadas.
Felizberto, disse estar a pensar num curso de Letras. Mas como desde 1928 a Faculdade de Letras do Porto estava encerrada, terei de escolher outro caminho que até poderá passar também por Coimbra se o Senhor Director não vir inconveniência para o serviço.
- Meu caro amigo, veja lá como consegue conciliar as suas opções, porque da minha parte terá sempre toda a ajuda que for necessária. E já agora, aproveito para o convidar a vir jantar em minha casa no próximo sábado. Conhecerá então a família. Felizberto, apanhado de surpresa, ia dizer qualquer coisa mas o Director logo rematou a conversa com a frase: - E não aceito uma recusa!
Para o jantar de sábado teve de recorrer à ajuda da tia. Ela lá conseguiu arranjar um fato ainda em bom estado mas que já não servia ao marido. Deu-lhe uma boa limpeza e escolheu uma camisa branca e uma gravata sóbria como convinha e uns sapatos que o sapateiro acabara de entregar depois de lhe colocar meias solas. Assim vestido e calçado, com a barba bem feita, um cheirinho a alfazema que a tia lhe espalhou na roupa, Felizberto parecia outro, como gracejava a prima.
O Director estava à sua espera e foi ele que abriu a porta e com um largo sorriso apresentou-lhe a esposa, uma senhora bem nutrida de carnes, carregada de fios de ouro, e com um rosto algo esquisito porque tinha os lábios carregados de baton. Esta é a minha fiel companheira, Dona Leocádia de Carvalho e Morais, e este o meu colaborador de confiança, sr. Felizberto Silva, espero que brevemente, Dr. Felizberto. Como tinha ensaiado com a tia, Felizberto cumprimentou a senhora com toda a deferência.
Dona Leocádia, pegou-lhe num braço dizendo: - Agora fica comigo pois sou eu que lhe vou apresentar as jóias da família. Felizberto ficou algo confuso, mas na realidade, as preciosidades eram as duas filhas do casal.
Para qualquer delas aquele jantar iria ser um aborrecimento e nem um sorriso por mais tímido, lhes aflorou os lábios. A mais velha, Maria Madalena, já teria passado a casa dos trinta. Sem ser feia, tinha um rosto triste e enigmático e um olhar sem brilho. Contudo, Felizberto teve o pressentimento que aquela mulher viria a desempenhar um papel, importante, na sua vida. A mais nova, aí na casa dos vinte anos, chamava-se Maria da Cruz. Tinha uns longos cabelos negros que emolduravam um rosto bonito e lhe davam um ar de mulher fatal. Enquanto almoçavam, Felizberto não conseguia deixar reparar em Maria da Cruz e sempre os seus olhos se encontraram. Na sua vaidade até lhe pareceu vislumbrar um olhar cheio de promessas.
Afinal tinha sido uma noite interessante e quando voltou para o quarto não deixou de escrever para casa contando o jantar e falando com entusiasmo da moça linda que tinha encontrado.
Mas algo iria mudar na sua vida. Na segunda feira seguinte, perto das quinze horas recebeu no serviço uma chamada telefónica de Maria da Cruz, a convidá-lo para aparecer no café Majestic pois precisavam de falar. Não cabia em si de contente, e o tempo que não passava.
Chegou ao café, um ex-libris da cidade do Porto, procurou uma mesa de onde visse a entrada, sentou-se, pediu uma bebida e ficou à espera.
Quando olhou para o relógio de parede e este já marcava as dezassete horas ficou mais inquieto. Sou capaz de ter percebido mal, pensava para os seus botões. Pior ficou, quando para sua surpresa, vê sentada numa mesa não muito distante da sua a Maria Madalena, que com um aceno o convidou a sentar-se.
Maria Madalena olhou-o bem nos olhos, e disse:
- Não, não é engano, eu quero dizer-lhe que a minha irmã não vai aparecer. Ela é muito jovem, gosta de provocar mas não sabe exactamente o que quer da vida. Convidá-lo foi mais uma partida das que ela costuma fazer a quem sente que impressionou. Gosta de brincar com os sentimentos dos outros.
Quando se decidir a encontrar um companheiro pode ter a certeza que o escolherá ,entre a corte de admiradores que a seguem, mas guiada pelos meios de fortuna da família. Não me parece que o senhor preencha essa condição. A minha irmã não virá e deixe-me que lhe diga, ainda bem para si. Ela gosta de se sentir adulada e mimada e não duvido que o senhor, isso faz bem. Mas acabará por se sentir traído e pode sofrer com o choque. A minha irmã sente ser um objecto de desejo, promete e não dá. Não me interprete mal, não o estou a avisar por inveja mas sim porque julgo conhecer as pessoas. O senhor é ingénuo e não tem experiência de vida, embora seja ambicioso. Mas sabe, uma pessoa atenta vê com facilidade as suas fragilidades. Não se esconda atrás de uma personagem que criou, não tenha vergonha da sua origem e condição. Seja afinal o que na realidade é; Um jovem à procura do seu caminho fascinado pelas luzes da cidade. Já agora e para fim de conversa, digo-lhe que eu já o conhecia antes de ter ido lá a casa. Quem me falou de si? Não importa, pois ele não poderá confirmar. Foi preso e dele nada mais se soube.
Levantou-se da mesa com ar decidido, deixou umas moedas para pagar o café e saiu sem olhar para trás.
Aquele encontro deixara marcas. Felizberto sentiu-as porque reconhecia que se estava a transformar em alguém que não queria ser. Regressou a casa, não saíu para comer e ficou deitado, inquieto, à procura dos sonhos que tinha deixado de sonhar.

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