sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

10 - À BEIRA DO ABISMO

Mais uma carta para juntar aos seus receios. E que ele iria sentir de forma tão intensa, sofrendo como nunca pensou ser possível.

Meu amor,

Hoje quero estar mais tempo perto de ti. Hoje a noite em que te escrevo vai ser de martírio.
Hoje vão desfilar pela minha memória todos os horrores por que passei. As desilusões que sofri, o sofrimento que testemunhei e a barbárie de que o homem foi capaz. Hoje sinto o cheiro a morte que se me agarrou ao corpo. E que teima em não me libertar. E é com os olhos rasos de lágrimas que penso em ti.
E sinto-te, partilhar dos meus momentos. Aqueles que vivemos juntos, e tão poucos eles foram, e aqueles que vivemos, cada um em seu mar, mantidos afastados como dois proscritos.
Hoje preciso de reviver o nosso passado, porque tenho medo do futuro.
Sinto-me morrer um pouco e tenho medo de fechar os olhos.
Vem nas asas aladas do pensamento fazer-me companhia. Vamos beber do mesmo copo o fel das nossas vidas. Brindemos ao amor à vida e à morte. Mas brindemos juntos, dois corpos numa mente.
É de noite. Faz calor e as ruas estão cheias de gente que ri enquanto sorve bebidas geladas. Gente que ri, porque meu Amor ainda há gente que ri e que é feliz.
Chego à janela e apetece-me pedir silêncio em nome dos que estão tristes e sós. Mas que adianta, ninguém me vai ouvir.
Sabes, amanhã vou embarcar para Marselha e dali sigo para Argel. Vou para uma cidade linda e branca, mas carregada de ódio e pronta a rebentar em pólvora e em sangue.
Eu já vi sangue demais. Já não sei se suporto nova provação. E meu Amor, desta vez sinto o medo. Quando cerro os olhos, vejo corpos caídos, exangues, mas sem rosto. É um medo que me arrepia como se fosse um pressentimento.
Não sei que fazer. Estou perdido a meio caminho, sem bússola sem guia e sem vontade de caminhar. E a noite que não passa e leva os meus fantasmas. Sinto-me à beira de um precipício e uma sombra que ri, segreda-me: anda em frente, segue, dá o passo que te falta!
E eu recuo, agarrando-me ao vazio, pedindo e gritando, agora não, ainda não.

BALADA

Depois do sangue misturado,
depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint’anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabo dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.

Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não...

Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ...
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos ...
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!

Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não! que ainda não!

(David Mourão-Ferreira)

O sol despontou. A noite escura foi-se desvanecendo e um dia radioso se anuncia. Vou até à janela, já não oiço a voz que me atormentou. A cor do sol ao amanhecer é viva, cheia de esperanças. Assim como eu fico. Mas são horas de partir.
É só descer as escadas, puxar uma pequena mala e tomar um táxi que me espera. O condutor guiará que nem um louco na direcção da estação de Austerlitz. A hora do comboio aproxima-se. Não posso tardar.
Voltarei?
Vai à nossa praia, procura o lugar onde enterramos os sonhos e os desejos e junta mais este. Quem sabe, um dia os iremos reviver.
Adeus, adeus adeus
A
Paris, 31 de agosto de 1954


Felizberto leu este pedido de ajuda, este grito de medo. Também eu tenho medo meu irmão, murmurava enquanto um espasmo de dor lhe perpassava pelo corpo.
Oh como agora se lembrava do que lhe custarara, jovem e ingénuo seminarista, ter de inventar segredos, pecados e luxúrias, que nem sabia o que eram, para deleite de alguns Padres que o ouviam no confessionário. E agora, tantos anos já vividos, tinha sido ele a espreitar os segredos de um par de amantes e também para seu único prazer. Afinal, pensava para si, qual era a diferença?
Olhava em redor, perdido. Procurava uma mão amiga a quem pedisse ajuda. Mas não tinha. Tudo perdera porque tudo quisera e esquecera as pessoas.
Tinha o olhar turvo e pesado. Precisava de refrescar a cabeça. Foi a um lavatório, olhou-se num espelho e recuou num salto. Também ele vira jovens da sua idade tombados, erguendo as mãos implorando ajuda, mas não tinham rosto. Eram mortos vivos, eram a sua assombração. Saiu a correr para casa. Sem parar, ouvia passos que o perseguiam mas não via ninguém. As ruas estavam vazias e só ele corria fugindo do destino que imaginara ver.
Parou numa taberna a meio do caminho, escura e quase vazia, comprou uma garrafa de vinho, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos. Pagou e sem olhar para trás correu e encerrou-se no quarto. Estava quente e o suor escorria em bica pelas fontes. Abriu a janela, e começou a beber pela garrafa grandes tragos de vinho. Era áspero e parecia queimar a garganta e o peito. Acendeu um cigarro, outro, e mais outro e inalando tanto fumo e sorvendo tanto alcool, começou a sentir uma névoa sobre os olhos que se fecharam de cansaço. Acordou com os primeiros raios de sol. Lavou-se, vestiu-se sem nunca olhar o espelho. Tinha medo de se ver.
Entrou no serviço e seguiu logo para o seu lugar. Remexeu uns papéis,
segurou a cabeça entre as mãos. Estava esgotado. Consumira-se naquela loucura que vivia, como se fosse uma vida paralela. Ele era parte da tragédia e, era dela, que o seu espírito se alimentava.

Sem comentários:

Enviar um comentário