quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

3 – A RUPTURA
Tinha já quinze anos, quando nas férias de verão, enquanto apascentava o pequeno rebanho, encontrou um pequeno regato, onde nesse ano ainda corria um fio de água fresca, formando uma pequena represa no meio dos fetos. Estava um sol abrasador e Felizberto resolveu banhar-se naquela água pura. Despiu-se entre as moitas de fetos, e mergulhou na água. Sentiu-se livre como outrora, esquecendo as penas, as proibições, as censuras e até as penitências a que fora submetido por ter sido encontrado a ler, à luz do pequeno raio de luar que lhe entrava na cela, um livro que um colega lhe emprestara. Chamava-se “A Cidade e as Serras” de Eça de Queiroz. O livro fora-lhe confiscado sem qualquer justificação. Aprendeu então que ler um livro fora do sistema era considerado um pecado.
Dentro de água, sentia-se como uma ave prisioneira a quem tivessem aberto a porta da gaiola. Dava umas braçadas, mergulhava e deixava-se flutuar enquanto o sol lhe acariciava o corpo e libertava o espírito. Estava só, ou julgava estar, porque um restolhar no mato lhe chamou a atenção.
Saiu a correr da água procurando a roupa que despira, mas não a encontrou. Uma sonora gargalhada, vinda do interior da mata, fê-o descobrir uma mulher que lhe acenava com a suas calças e a camisa. Correu tentando recuperar a roupa, enquanto a mulher, ainda jovem, se ria dizendo que afinal o filho do Padre também era homem.
Felizberto, furioso, recuperou a roupa e sentou-se para melhor vestir as calças. Sentada ao lado, a mulher que lhe havia pregado a partida, não escondia o sorriso enquanto lhe perguntava:
- Olha lá, tu já és Padre ou ainda andas a aprender?
- Felizberto, já recomposto, disse que isso era assunto que a ela não dizia respeito. Mas já agora sempre digo que ainda sou só seminarista. Porquê?
- É que eu já vi mais do que um Padre nu, mas nunca um tão jovem e bonito, respondeu a desconhecida. E tu já viste alguma mulhar nua?
- Não nem quero, pois isso é pecado mortal.
- Pecado? Não sejas parvo. Um pecado é aquilo que o teu Padrinho fez. Um filho a uma mulher solteira que depois abandonou. Sim, não olhes para mim dessa maneira, ele não é teu Padrinho é teu Pai e se não acreditas pergunta à tua Mãe. Voltou as costas e desapareceu.
Sentiu-se perdido e chorou. Não por ele, nem pelo Padrinho, pessoa de quem não guardava sequer recordações, mas sim pela pobre Mãe. Não lhe vou dizer nada, decidiu, esta dor vai ficar comigo e com ela terei de viver.
Voltou para o Seminário mas a dúvida lançada pela desconhecida, estava bem presente no seu espírito. Tentou continuar, mas ano após ano, sentia-se mais desligado e sonhava com outro rumo para a sua vida. Receava magoar a Mãe e por isso continuava sem lhe dizer que tomara a decisão de não se ordenar, embora a data estivessse próxima. Não podia protelar mais a decisão que no seu íntimo já tomara. Tinha 20 anos e era tempo de mudança. Mais, porque um acontecimento inesperado, tudo precipitara. Já de férias de verão, encontrou uma mulher e com ela teve a sua primeira relação sexual. E tudo mudou, porque ele entendeu aquele momento de paixão, tão intenso, como um sinal de que a vida de Sacerdote não era para ele. Fora por isso, o dia da ruptura.
A mulher, com experiência de vida, enquanto compunha a roupa desalinhada que o entusiasmo do jovem havia rasgado, foi-lhe dizendo que o que acabara de acontecer entre eles, era algo de natural, entre um homem e uma mulher. Sim, dizia, não te esqueças que és homem antes de ser Padre.
Não te precipites a tomar decisões de que te podes vir a arrepender. Lembra-te dos sacerdotes que conheces e que têm um rebanho de filhos.
Felizberto não respondeu. Desceu a encosta da serra murmurando que poderia ser tudo na vida, mas hipócrita não seria. Não quero dizer aos outros façam o que eu digo, não olhem para o que eu faço.
Chegado a casa e como sempre fizera, sentara-se à sombra da figueira enquanto a Mãe preparava a sopa. Estava inquieto, olhava para lá dos montes e acompanhava o descer do sol, imaginando o que seria a vida para lá do horizonte. Era a hora de partir, mas primeiro tinha de convencer a Mãe.
Não foi preciso, pois esta aproximou-se, colocou a mão sobre a cabeça do filho, e enquanto lhe acariciava os cabelos, disse:

“- Meu filho:
Sinto que tens algo para me dizer e que não consegues. Já não és criança e tens o direito de fazer a tua escolha. Já há bastante tempo que venho sentindo que tu não tens a vocação para servir a Igreja. O teu Padrinho acha mesmo e até é opinião do Reitor, que apesar da tua cultura e inteligência, deves abandonar o Seminário.
Lembrei-me que podias tentar a carreira militar. Com os teus estudos até seria uma actividade interessante. Mas, infelizmente, nas sortes os médicos acharam que tu eras demasiado franzino e ficaste livre.
Eu não sei que te dizer mais. Escolhe o teu caminho. Seja ele qual for a Mãe ficará feliz se também te vir feliz.
Felizberto ouviu em silêncio as palavras da Mãe. Depois levantou-se, sentou-se ao lado e como nos tempos de criança, mergulhou o rosto no peito magro da Mãe, como se implorasse uma carícia. E sentiu a ternura dos dedos magros e nodosos a percorrer-lhe a cabeça e a face. Quando, alguns momentos depois, levantou os olhos, não teve vergonha que a Mãe visse o rio de lágrimas que lhe corria pela cara.
- Não chores meu filho, não me deste um desgosto e eu não fico triste. Tenho confiança, toda a confiança que irás encontrar o teu destino.
- Pronto, já chega de lágrimas, disse a Mãe. Vou avisar o teu Padrinho da decisão e ele acertará as coisas com o Seminário, até para que te passem um documento certificando os anos de estudo que lá passaste. Depois vamos para Vila Pouca de Aguiar e dali tu segues para o Porto e a Mãe regressa a casa.
Levantou-se, foi buscar uma velha lata de café, tirou um molho de notas amarrotadas que lhe deu, para fazer face às despesas. Não é muito, eu sei, mas é tudo o que temos. Leva também este envelope de carta, que tem o endereço do teu tio Manuel. É meu irmão e como tu também decidiu fugir da pobreza e hoje vive na grande cidade. Ele escreve-me de vez em quando à atenção do Padre Francisco que me lê as cartas e lhe responde. O teu tio pergunta sempre por ti e diz que se tu quiseres o procures que ele te ajudará, no que puder.
Ele é chefe de uma estação de correios e é pessoa muito bem vista pela chefia.
Pronto, agora limpa os olhos e vai preparar as tuas coisas. Sairemos logo pela manhã pois a caminhada ainda é longa. Depois, em Vila Pouca tu apanhas a camioneta e eu volto e fico à espera que, ao menos tu, não te esqueças de mim.”

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