O acordar de um pesadelo é sempre difícil. Mesmo que o mesmo seja uma coisa sem sentido e desligada do que chamamos vida, alguma marca ou desconforto, sempre ficam.
Os que vivem normalmente e só de vez em quando são assaltados por um pesadelo, também se queixam do mesmo.
Agora imaginem o que sentiu o meu amigo John Doe.
Passou pela vida sem nunca dar nas vistas, trabalhou dando tudo o que sabia e podia, foi sujeito a sucessivas lavagens ao cérebro feitas pelos sindicalistas da Empresa, e a tudo resistiu.
Mas agora, que é agredido diáriamente com as notícias que mesmo sem querer, vai ouvindo na TV, que fica assustado de morte ao ouvir as professias dos Bandarras dos tempos modernos, todos especialistas em alguma coisa, embora a maior parte deles nunca tivesse feito nada, e apesar de se lembrar daquela célebre frase, cujo autor não recorda "Se sabes faz se não sabes ensina", ficou irremediávelmente perdido.
Pensou em ir para a rua gritar o seu desassossego, mas a rua já estava ocupada com os gritadores profissionais do costume; Idealizou escrever um cartaz bem grande pedindo ajuda, e colocar-se no meio do IC 19 à hora de ponta, mas desistiu pois no mínimo seria atropelado; Não podia nem devia ir para a rua perguntar aos outros o que realmente se estava a passar, pois embora ninguém lhe fosse capaz de responder ainda o iriam chamar de ignorante.
Então fechou-se numa concha, esqueceu o passado e tenta viver hoje o futuro porque amanhã poderá ser tarde.
Nos momentos de rara e cada vez menos frequente lucidez, maldiz o destino que o fez nascer num País Salazarento, ignorante, do salve-se quem puder, que o levou para uma guerra que, para além dos soldados mortos ou estropiados, não serviu para nada senão para a rápida promoção dos senhores Oficiais do Q.P., que hoje vivem repimpados nas suas mordomias, que sonhou madrugadas felizes em Abril e mais uma vez foi traído.
Agora, descobriu que por favor sabe-se lá de quem, é Europeu. Europeu? A que propósito se ele só queria ser feliz!
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