5 – A PRIMEIRA CARTA DE AMOR
Até a Universidade não estava a corresponder ao que dela imaginara. As matérias eram banais e sem grande esforço tinha excelentes notas. Mas não tinha um amigo com quem pudesse conversar. Na verdade, sentia-se um corpo estranho e os colegas afastavam-se dele.
Tornou-se mais frio e distante. O encantamento ia desaparecendo pouco a pouco. Refugiava-se na leitura e realizava o seu trabalho de forma mecãnica e desinteressada.
E foi num desses dias mais sombrios que reparou numa carta que lhe chegara as mãos. Não tinha nada de diferente das outras mas um sexto sentido despertou-lhe a curiosidade, abriu e leu, pela primeira vez, uma carta de amor. Daí em diante a sua vida nunca mais seria a mesma.
A carta tinha como destinatário o senhor André Breton, Rue de l’Ópera, 128 – 3ème gauche Paris e como remetente R. Castro na Rua do Bolhão, 208 – r/c esquerdo – Porto.
O texto fascinou-o:
“ Meu amor distante,
É verdade, meu velho companheiro. Faz dezasseis anos que não nos vemos.
Desses, alguns, já nem sei quantos, estivemos tão longe que nem uma palavra escrita pudemos trocar.
Naqueles longos e tristes anos, sem te ler, sem saber de ti, fizeram-me duvidar da existência de Deus. Afinal, que mal teríamos nós feito para justificar tanta dor?
O nosso amor merecia um castigo tão grande?
Imagino como sofreste nesse período de escuridão. Porque sei o mal que ele me fez. Mas entre o desespero e a esperança fui aceitando o correr dos dias, dos meses, dos anos, esperando sempre uma palavra tua. A minha companhia era o nosso mar, na nossa praia. Sentada, horas e horas, ouvia o bramir das ondas contra as rochas, mas no nosso recanto, a água vinha de mansinho acariciar-me os pés. Isso fazia-me feliz.
Foi num desses dias que senti dentro de mim um som que nunca mais esqueci. Parecia um sussurro a dizer-me para voltar a casa. Corri cheia de esperança. Tinha um pressentimento que algo de bom iria acontecer. E foi. A tua palavra chegou. Mas tão triste e sofrida que as tuas palavras de desânimo, ficaram para sempre guardadas no meu coração.
Meu amor, sinto uma saudade tão grande que não cabe nas palavras. Deixámos fugir o que deveria ter sido o melhor período da nossa vida. “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, já dizia o Poeta e foi tudo isso.
Quando deitados na praia, na nossa praia, ouvindo o bater das ondas e do nosso coração, depois de nos termos amado até à loucura, decidimos dar corpo aos nossos sonhos, aos nossos ideais, deixamos que outros impedissem o nosso caminho. Tu seguiste, apesar de tudo, e eu fiquei nesta prisão cada dia mais sufocante.
Dezasseis anos, meu amor. Será que valeu a pena?
Afinal nada mudou, nada mudámos, apenas ficámos mais velhos.
E os nossos sonhos, que é feito deles? Estarão ainda enterrados na areia da praia onde os deixámos?
Como te disse, juntei as nossas cartas, os nossos poemas preferidos e pedi ao António que os editasse em forma de livro, mas apenas uma dezena de exemplares. Eram só para nós. Até isso se foi e até essa memória nos roubaram. O António foi preso e do livro nem encontro um sinal. Desejo, que pelo menos o tenha levado, lá para onde foi, e lhe mate as saudades destes dois amigos.
Anseio pelos teus beijos. Sinto, oh como sinto a tua ausência. Nesta vida que levo, esperando ansiosamente as tuas cartas, nada mais me resta do que ler e reler os poemas da nossa vida.
Os livros são os meus únicos amigos mas até eles tenho de manter escondidos. Passo a vida à procura de alguém que não faça perguntas e aceite emprestar o endereço para receber as tuas notícias. Os livros, agora estão guardados nas prateleiras de casa e da livraria que a Dona Elvira vai gerindo enquanto não souber nada do marido. Coitada, vive só e emprestou-me as chaves para eu me esconder enquanto leio.
Mas agora fala-me de ti, meu amor etéreo. Diz que me amas e que ainda acreditas no nosso futuro. Preciso desse amparo, pois sinto-me uma estátua falsa, sem vida e ao sabor dos ventos.
ESTÁTUA FALSA
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh’alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar ...
(Mário de Sá-Carneiro)
Adeus, amor de uma vida. M.M.
Porto, 13 de Janeiro de 1954 Quando acabou de ler a carta e reler a poesia, Felizberto percebeu que havia ousado entrar na intimidade de duas pessoas, que não conhecia mas que sofriam. Acabara de violar um direito, ele que sempre pensara não o fazer.
Suores frios ensoparam a camisa porque, tal como um criminoso empedernido, sentira prazer com o que fizera. Arranjou maneira de copiar a carta, guardar um apontamento com os endereços, fechar e deixar seguir.Terminou a tarefa, estendeu as mãos e ao contrário do que imaginara, elas estavam firmes e sem qualquer tremor.
De repente lembrou-se de que a carta falava no Sr. António, o seu antigo patrão e que Maria Madalena também havia referido o incidente da prisão, na conversa que tinham tido. Maria Madalena claro, teria de ser a autora daquela carta.
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