8 - O COMEÇO DO FIM
Entretanto Agosto chegou de mansinho. As pessoas saíras para férias e a cidade ficou mais vazia e calma.
Mas Felizberto nem disso se dava conta. O seu dia a dia continuava a ser o mesmo. A sua vida ficava cada dia mais distante e sem sentido, que não fosse prestar atenção redobrada à correspondência, com medo de perder o desenrolar da história de amor e sofrimento. Nada mais o interessava. Como não tinha amigos nem pessoas para conversar, fechava-se cada vez mais no seu casulo, como se ele também fosse parte da história.
Desta vez estava perturbado pois havia mais de um mês que não encontrava a resposta e chegou a pensar que tudo tivesse chegado ao fim. Mas, finalmente, localizou uma carta vinda de Paris. O nome do destinatário era agora Flobela Lobo, na Rua de Santa Catarina, 420 – 4º. Esq. Porto. O remetente era A. Botto, Rue des Tuilleries – Paris. Ele já percebera que os nomes estavam ligados aos autores dos poemas e por isso não eram importantes.
Voltou a abrir e mais uma vez, acertou. A carta também começava com um poema.
“Chora a amante esquecida,
Chora quem vai barra fora;
-Quem não chorou nesta vida
Se o próprio mar também chora?
Sim; tudo acaba num ai,
Num silêncio, num olhar,
Ou numa lágrima triste!
-Nem já sei se te beijei,
Nem me lembro se me viste...
É isto, apenas. O mais
É mentira e fantasia...
-Se a vida não fosse choro,
O que é que a vida seria?
(António Botto)
Meu amor,
Demorei mais tempo a escrever. De repente o Editor da revista mandou-me a mim e ao Yves fazer a reportagem da libertação dos soldados franceses presos após o desastre de Dien Bien Phu na Indochina.
A viajem era longa e como não queríamos perder o momento arrancámos de imediato. Regressei hoje, e só hoje pude ler a tua carta.
Não vai ser tão depressa que vou conseguir esquecer o momento em que soldados treinados, combatentes da Legião Estrangeira e das Tropas Paraquedistas de elite, homens feitos, choravam de dor e raiva depois de terem sido humilhados por um exército de homens descalços, mas de vontade indómita, que durante cinquenta e seis longos dias, os haviam combatido en Die Bien Phu, a fortaleza inexpugnável na opinião dos generais franceses.
Gritavam de raiva, nunca mais, e atiravam os bonés ao estuário do rio. Sentiam que a França tinha abandonado os seus centuriões, que ali tinham estado a combater para defesa dos ricos fazendeiros franceses e dos seus aliados.
Ouvi, e o Yves fotografou, um tenente coronel Paraquedista,a soluçar como um pai a quem tivessem morto um filho. Mas como podes reparar tem um brilho muito estranho no olhar.
Não auguro nada de bom. Estes homens vão voltar e desembarcar derrotados, e por isso escondidos do povo para sua maior humilhação. O que farão a seguir, não sei.
Ouvi dizer, e não pela primeira vez, que esta apenas foi a continuação das guerras anteriores e a primeira pelalibertação de povos colonizados. Outras se seguirão.
Pelo portador habitual vais receber um exemplar da revista onde foram publicados os meus artigos e as fotos do Yves.
Estou muito cansado. Viver, começa a pesar. A solidão mata.
Penso em ti, nos momentos que não vivemos, nas ternuras que não tivemos. Penso em ti. Vem, vem depressa.
DIES IRAE
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grandes cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
(Miguel Torga)
Paris, 18 de Agosto de 1954
A.
Bem, pensou Felizberto, agora não sou capaz de parar, ainda que queira.
Já não tenho vontade própria. Este ser que chora as desventuras dos outros, não que lhas contem, mas que espia pelo buraco da fechadura, já se perdeu.
Não tem mais nada, nada o prende salvo as cartas de amor que anda lendo às escondidas. Se terminarem as cartas também termina a sua razão de ser. Como é que a solidão me causou tanto mal? O que eu ando a fazer não tem perdão e nem eu a mim próprio posso perdoar. Pudera eu voltar atrás, ter seguido os conselhos que me deram e tudo poderia ser diferente. O mal dentro de mim não existia, ele cresceu alimentando-se da minha própria carne e bebendo do meu sangue.
Ficou doente e em estado febril. A tia chamou um médico que o medicamentou, tratou dos efeitos mas as causas ficaram. Mesmo assim voltou ao trabalho já que aos exames havia dispensado. Os tios ficaram naturalmente preocupados mas a pedido não contaram nada à Mãe. Atribuíam o estado do Felizberto a cansaço com os estudos e que se agravou na época de exames. Até Felizberto fez por acreditar.
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