11 – MUDANÇAS
Um contínuo veio chamá-lo. O senhor director acabara de chegar e mandara avisar que o esperava no gabinete.
Fazendo das fraquezas forças, Felizberto entrou no gabinete e cumprimentou o Director com um esgar, que pretendia ser um sorriso. Este levantou os olhos dum papel que estava lendo, olhou para Felizberto e assustou-se.
- Meu caro amigo, você está doente ou é cansaço? Nunca pensei que o viria encontrar tão abatido, logo hoje, que tenho tantas novidades para lhe contar! Talvez o melhor seja deixar para amanhã. Vá descansar, passe pelo médico para lhe receitar umas vitaminas ou uns tónicos, durma uma noite bem dormida e amanhã ou depois falamos. Não se preocupe com o serviço porque eu estou de volta e posso dirigi-lo.
Felizberto nem sentiu coragem para responder. Saiu do gabinete, curvado como um velho e voltou para casa. Deitou-se em cima da cama, teve um ou outro espasmo mas deixou-se vencer e dormiu horas seguidas. Acordou já era bem tarde. Saiu foi tentar jantar, conseguiu comer qualquer coisa leve, voltou para o quarto e continuou a dormir.
No dia seguinte sentiu-se um pouco melhor, ao fazer a barba ainda tremia de olhar o espelho mas já deixara de ver aquela imagem que o havia transtornado.
Entrou cedo no trabalho e começou a dar seguimento às inúmeras cartas que tinha pendentes na sua secretária.
Mas o destino perseguia-o como uma maldição. Ao tocar numa das cartas, sentiu que ali estava mais uma carta de amor e de desespero. Ficou muito tempo com ela nas mãos, hesitando em abrir ou deixar seguir. Não sabia o que mais o faria sofrer. A angústia de um desenlace ou a persistência da dúvida.
Mas abriu. O endereço seguia o padrão habitual e o remetente também. Já nem perdia tempo com estes pormenores.
O texto era um lamento e um raio de esperança.
“Minha vida,
Agora,o nosso encontro está mais próximo. Tu és a réstea de sol que me alumia. Não ma tires, não me condenes à escuridão eu que só já vejo o mundo nos teus olhos.
Em breve, muito em breve estaremos juntos e beberemos as nossas lágrimas.
IR BEBER-TE
Ir beber-te num navio de altos mastros
No mal alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros.
Para ti sobre a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
(Sophia de Mello Breyner)
Que o vento suão te traga, como de mim te levou.
Quando voltares, olha bem para o cais, pois vais ver-me de branco vestida, como uma noiva em dia de casamento.
Sim, conseguimos.
Ao fim de tantos anos de dor e ausência, vou para Paris e estarei no cais alvoroçada e fremente à tua espera.
Então, como dois jovens de rosto feliz e de lamentos contidos, com o sorriso das madrugadas, com o cantar das ondas do nosso mar, perder-nos-emos nos braços um do outro. E assim ficaremos, até que algo mais forte do que a morte nos separe.
Acredita no amor que me consome. Na saudade que me fere. Não troco as nossas vidas feitas de dor e regadas com lágrimas. Somos o que somos e este foi o nosso fado.
Volta, meu amor, volta depressa.
Amo-te tanto.
M
Porto, 8 de Setembro de 1954
Fechou o envelope e colocou-o pronto para seguir. Tinha acabado de o fazer quando o Director o mandou chamar.
Estava à porta procurando mais forças para entrar no gabinete, quando a porta se abriu e o Director lhe lançou um braço pelo ombro dizendo:
- Venha meu amigo, sente-se aqui, pois vejo que está com melhor aspecto e as notícias que lhe vou dar ainda o vão fazer sorrir de alegria. E começou a contar as novidades:
- Estas férias trouxeram grandes modificações na vida deste seu amigo. Primeiro, fui requisitado pelo Ministro da Informação para seu assessor, com início no primeiro dia de Outubro. Isso implica uma mudança residência e a Dona Leocádia, entusiasmada, já ficou em Liboa para escolher a nossa futura casa;
Depois, a minha filha a Maria da Cruz, casou-se no último fim de semana. Foi uma festa simples, por vontade expressa dos noivos, e reservada à família mais chegada. O meu compadre, Comendador Moreira e a Esposa ficaram desgostosos, mas eu entendi o desejo da minha filha. Bem a conheço e sei quão simples ela é.
Ainda mais, a minha filha mais velha a Maria Madalena, quando esteve na quinta do Douro com o casal nosso amigo, recebeu o convite para ir trabalhar para a Embaixada em França como assistente do adido cultural .Ficou naturalmente feliz. O Dr. Alexandre de Freitas, acaba de ser nomeado Embaixador e vai apresentar credenciais na próxima sexta-feira. Nesta altura a minha filha já está em Paris para acompanhar a transferência dos dossiers.
Então meu amigo, o que me diz? Não me parece ter ficado contente?
- Desculpe senhor Director, estava a pensar nas voltas que o mundo dá, em menos de um mês. Mas, claro que fico muito feliz com o que ouvi e desejo a todos o melhor. Ficarei triste, é claro, por o ver partir, mas como vou agora de férias terei tempo de recuperar.
-Sim eu compreendo a sua tristeza, mas são oportunidades que não devemos deixar fugir. Você meu caro amigo, trate de aproveitar as férias para descansar. Que bem precisa, isso eu vejo. Até porque ao voltar terá novas funções à sua espera. Irá ser adjunto do novo director, pois ele, coitado, é novo nestas coisas e não tem experiência. E a sua promoção, e é disso que se trata, será efectiva a partir do dia 1 de Outubro próximo. Fui eu mesmo que a redigi e obtive o acordo do senhor Ministro.
- Vejo que já ficou com melhor cara, Felizberto. Agora saia e vá preparar as suas coisas para as férias. Não se esqueça que no último dia de Setembro deve estar aqui para a transferência de poderes. Tenha umas boas férias que bem merece.
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