2 – ALGUNS ANOS ANTES
“Tudo começara tinha ele oito anos de idade. Nascera e crescera numa pobre casa algures no meio da serra da Padrela em Trás os Montes. Vivia com a Mãe, uma mulher ainda nova mas marcada pela dureza do trabalho e pelas privações. O seu rosto, que ele agora tão bem lembrava, era tão coberto de sulcos como um terreno acabado de lavrar. Mas com olhos bondosos e ternos como os dos animais para as suas crias recém nascidas.
Desde bem pequeno que pastoreava, nas encostas íngremes da serra, meia dúzia de ovelhas e duas ou três cabras, de onde vinha o sustento da família. Família, aliás bem reduzida, pois era ele e a Mãe. Perguntara uma vez pelo Pai e a resposta foi de que tinha emigrado para o Brasil e nunca mais dera notícias.
Era já verão e bem quente quando, sentado junto à Mãe, apanhando a brisa fresca que soprava da serra, ouviu traçar o seu destino. E ainda hoje, passados mais de dez anos, era capaz de recordar, palavra por palavra o que a Mãe lhe havia dito.
“- Meu filho, olho para ti e penso como eu gostaria que tu tivesses um futuro diferente. Queria tanto que pudesses estudar e depois arranjar um emprego que te tirasse desta pobreza em que temos vivido. Mas a escola é longe e a Mãe não tem dinheiro para de pagar os estudos, os livros , os cadernos, a roupa. Tu és, toda a gente mo diz, um garoto inteligente e esperto e serias um bom Padre.
Por isso, falei com o teu Padrinho, o Cónego Miguel, e ele garantiu a tua entrada como aluno interno no Seminário de Vila Real. Acredita na tua pobre Mãe. Ver-te tão pequeno, abandonar a casa e ires para tão longe é como se cortassem um pedaço de mim, mas sei que deves ir. Porque a alternativa é ficares para sempre enterrado aqui, nestas terras esquecidas por Deus.
Virás a casa todos os verões e a Mãe vai gostar de te ouvir ler as escrituras e falar do Paraíso. Pois meu anjo, na minha vida só conheci o purgatório dos dias sem futuro.
Se aceitares a proposta do teu Padrinho, vais estudar, conhecer Deus e as pessoas e quando acabares serás colocado numa paróquia, passas a ter uma casa onde viver, poderás ajudar os outros e serás respeitado por toda a gente. Vê bem o exemplo do Pároco da aldeia de Carrazeda de Montenegro. Aquilo também é terra de gente pobre mas ao Padre Francisco nada falta.
Pois é, dissera Felizberto, por isso ele está gordo, respira saúde e não é do trabalho, que é coisa que ele teme tanto quanto o diabo!
A Mãe abriu um sorriso naquele rosto seco e duro, como a terra que cavava, comentando que mesmo assim, ele era respeitado por toda a gente da paróquia.”
E esse fora o caminho.
No Outono seguinte Felizberto deu entrada no Seminário. Era um garoto de olhar vivo e curioso mas pequeno de estatura. O tamanho, a imponência do Seminário, o silêncio e o olhar austero dos professores, fizeram-lhe medo.
Sim, ele que se habituara a andar pelos caminhos mais agrestes da serra a guardar e guiar o seu rebanho, que já tinha enfrentado lobos servindo-se apenas da coragem e do cajado, sentira medo. E chorara.
Ia estudando e cumprindo as suas obrigações, sonhando sempre com a chegada do Verão e o regresso a casa, à montanha, para respirar o ar puro e fugir do cheiro bafiento da cela onde passava as noites. Não se esquecia das palavras e da dor que vira no olhar da Mãe quando esta lhe largara a mão à porta do seminário. Sê um homem, havia sido o último murmúrio da Mãe.
Mas nos momentos de maior solidão, naquela cela escura e fria onde dormia, e só com as suas pequenas recordações, sem uma mão amiga ou um gesto de ternura, chorava a noite inteira. E percebia o que a Mãe lhe dissera. Sê Homem, não te deixes vencer pelo desânimo, limpa as lágrimas e segue o teu destino, repetia para si mesmo. Erguia os ombros caídos, e ficava preparado para mais um dia, mais um ano.
Nas noites de insónia ouvia gemidos vindos do companheiro da cela vizinha. Não o conhecia bem, pois ele era muito calado e não se dava a grandes amizades. Felizberto bem que notava o olhar sofrido e o rosto macerado do colega. Quis falar com ele, mas o pobre fugiu e não lhe respondeu.
Uma noite, daquelas bem tristes de inverno frio, Felizberto deixou de ouvir o choro sussurrado do colega que foi substituído por um silêncio que lhe causara calafrios. Apesar dos cuidados, murmurava-se entre dentes que o pobre Manuel, o seu vizinho do lado, havia escolhido outra vida e se havia enforcado na porta da pequena cela.
Felizberto compreendeu que naquela clausura onde viviam, só a força interior o podia salvar dum destino semelhante. E prometeu a si mesmo que nunca ninguém lhe veria uma lágrima, sequer.
Foi crescendo e aprendendo a viver, escondendo os seus sentimentos, as suas angústias e as suas dúvidas. Enfrentava com coragem, as brincadeiras, seria? ou os abusos dos mais velhos e passou a ser olhado com respeito. Como alguns diziam, o franganote não era para brincadeiras, o melhor seria deixá-lo em paz.
Aprendera aquela lição. Se mostrasse receio ou subserviência o seu destino poderia ter sido igual ao do Manuel. Sem saber estava a moldar a sua própria personalidade e foi amadurecendo a ideia de que, mais cedo ou mais tarde iria deixar o Seminário.
Lia os livros sagrados como se lê um romance, aprendeu Latim, francês e até um pouco de filosofia e de teologia. Notou contradições entre a prática e as escrituras e um dia ousou questionar o professor, Padre Crispim, mas o olhar do professor de cenho franzido e benzendo-se como se a pergunta tivesse algo de satânico, depressa o fizeram compreender um dos princípios fundamentais. Não se questiona quem nos ensina.
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