segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Carteiro que gostava de cartas de amor

12 – O FILHO PRÓDIGO

Felizberto, arrumou os papéis, pegou uma caixa de madeira com uma pequena fechadura, onde guardava cópia das cartas e dos poemas, que havia interceptado entre os dois infelizes amantes e levou-a com ele. Queria ler pela última vez e depois lançá-los ao rio, para que este os levasse à praia dos sonhos.
Os tios estavam de férias no Minho e assim foi-lhe fácil arrumar as poucas coisas que possuía, numa velha mala de cartão e tomar o transporte para o regresso a casa. A camioneta parou para almoço num parque perto do rio Douro. Passeou ao longo da margem, fechou à chave a pequena caixa com os seus segredos, e largou-a na corrente. Ela flutuou e na curva do rio, muito lentamente, afundou-se. Depois pegou na chave, levou-a aos lábios e lançou-a à distância. Por momentos ficou olhando o rio que transportava parte da sua vida e sentiu um aperto no coração, como quando se perde alguém que se ama. A seguir, inclinou-se junto à margem, e com as mãos em concha, lavou o rosto, para disfarçar as lágrimas que não conseguira conter.
Chegou a casa como um filho pródigo. Em silêncio de mãos vazias e coração ferido.
Começara a escurecer, entrou e foi encontrar a Mãe deitada sobre a cama, de olhos fechados e com uma respiração tão suave que quase nem ouvia. Ia sair quando esta o chama e lhe estende a mão. Felizberto, apertou-a com força entre as suas, mergulhou o rosto no peito que o criara. Não soltou uma lágrima mas ficou assim até que a Mãe lhe levantou a cabeça e se fixou nos seus olhos.
- Meu pobre filho, murmurou, como é que a vida te tratou tão mal? Não, não digas nada. Voltaste para te despedires da tua velha Mãe, e isso é que importa. O resto, as tuas dores, os teus desenganos vais ter de ser tu a resolver. Eu já cá não estarei para te ajudar. Olha meu filho, vê se te lembras duma história bonita, daquelas que me sabias contar, para me fazer sonhar e dar conforto na viajem que se aproxima.
Felizberto, sentou-se na cama e quase sem dar por isso pôs-se a dizer, lentamente e com a voz entrecortada por soluços, “uma história de amor feliz”.

“Ela Chamava-se Madalena como a companheira de Jesus, ele dava pelo nome de André, um dos seus discípulos.
Eram jovens de dezoito anos quando se conheceram. Prometeram-se um ao outro para toda a vida e sonharam uma vida feliz.
Mas sonhos são sonhos e por vezes a realidade é cruel.
Madalena era filha de gente rica e importante e ele, orfão de Pai, era pobre entre os pobres.
Decidiram enfrentar as críticas e as desaprovações. Juntos sentiam-se capazes de saltar as barreiras, derrubar o muro que os cercava e alcançarem o direito a ser felizes. Mas o muro era demasiado alto e separou-os durante muitos anos. E eles ficaram sós, vivendo cada um em seu mundo.
Lutaram, sofreram a dor da ausência e da saudade. Mas nunca traíram o amor que tinham jurado. E, finalmente, puderam encontrar-se. O amor venceu, a esperança não foi uma ilusão, e eles foram felizes para sempre. “

Quando acabou, cerrou os olhos da Mãe, e quando lhe pareceu ver nos lábios um sorriso de tranquilidade, deixou que finalmente as lágrimas lhe corressem. Em silêncio, pediu perdão a Madalena, mas tinha a certeza que ela compreenderia a bondade da história que acabara de contar.
Esteve assim, imóvel e sofrendo, até ouvir o barulho duma motoreta que parava à porta. Uma voz de mulher jovem chamava:
- D. Lucília, sou eu a Amélia, venho trazer-lhe a ceia. Posso entrar?
Felizberto, levantou-se saiu e viu uma rapariga com um cesto na mão. Quando o viu, a rapariga percebeu no seu olhar que a amiga já não estava entre eles. Sentou-se num banco debaixo da figueira, pousou o cesto, tapou a cara com as mãos e começou a soluçar :
- Pobre D. Lucília, dizia em voz baixa, ela pressentira que a sua hora ia chegar, pois ontem quando nos despedimos, deu-me um abraço tão forte como se fora o último, formulou um desejo e fez um pedido. O desejo era ver o filho e o pedido era para eu tomar conta dos animais.
Enxugou as lágrimas, olhou para o homem na sua frente e perguntou?
– O senhor é o Felizberto o filho da D. Lucília, não é verdade? Ela estava doente já há muito tempo mas não queria que o filho soubesse, porque não o queria fazer sofrer. A sua Mãe só teve um objectivo na vida, vê-lo feliz. Ainda a encontrou com vida?
Felizberto acenou que sim e que foi ele que lhe cerrou os olhos. Foi sentar-se no seu antigo lugar, olhando para o horizonte que já mal se percebia.
Agora estava só no mundo e devia à memória da sua mãe a lição por todos os sacrifícios e humilhações que ela tinha enfrentado, sózinha. E ele chegara mais pobre e só do que partira.
- Voltou-se para a rapariga e pediu desculpa:
- Eu nem a cumprimentei, e em boa verdade nem sei quem é a menina!
- Chamo-me Amélia, e não me chame de menina porque tenho a sua idade. Há cerca de um ano, vim viver com a minha Mãe doente, naquela casa junto ao moinho. Dava-me muito bem com a D. Lucília e era a ela que eu recorria para me dar uma ajuda quando eu precisava ou para me dar um consolo quando, nos momentos de fraqueza, não tinha nem força nem vontade para continuar a cuidar da minha pobre doente. Ela falava-me muito do filho, que tinha ido para a cidade e que lá tinha um trabalho muito bom, andava na universidade e tinha muitas amizades. Quando mo dizia tinha no rosto, precocemente envelhecido, um sinal de tanto orgulho e felicidade. Mas se ela tivesse visto, como eu vejo agora, o seu rosto macerado e os seus olhos baços, duvido que acreditasse na sua felicidade.
- Mas Amélia, ela ainda viu e isso dói-me mais do que tudo. Saí daqui disposto a conquistar o mundo. Volto vencido, despojado dos meus ideais e de coração vazio.
Felizberto acompanhou o corpo do ente querido, até há última morada. Quando o caixão desceu à cova, pegou num torrão de terra dura e áspera que esfalerou e espalhou pela sepultura. Como oração dizia, baixinho, “da terra nasceste e a terra te reclama”. Ao mesmo tempo, embrulhando uma flor silvestre, lançou à cova, um poema que havia copiado e guardava no bolso.

(SÃO MORTOS OS QUE NUNCA ACREDITARAM)

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é sómente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer ,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão de um campo de batalha!

(Florbela Espanca)

Passou os restantes dias de férias percorrendo os caminhos das suas recordações de infância. Esse voltar às origens, deu-lhe uma tranquilidade de espírito que já não sentia havia muito tempo. Depois procurou Amélia. E frente a uma jovem em lágrimas, disse:
- Não chores. A minha Mãe levou-te no coração. Eu não posso, não tenho coragem para te dizer mais nada. Só um pedido. Espera por mim. Eu vou voltar.
No final do mês de Setembro, e como se havia comprometido, assistiu à tomada de posse do novo Director. Para surpresa de todos, recusou o lugar de sub-director e aceitou um lugar bem mais modesto em Coimbra. Era agora um simples carteiro.

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