
CAPÍTULO – IX - DESILUSÃO
É verdade, reconhecia que ela e Francisco eram muito diferentes. Ela amava a vida e cada dia era preenchido com alegria e ternura. Dava-se por inteiro, corpo e alma. Francisco era mais sóbrio e pouco expansivo, possivelmente teria entregue só o corpo e guardou a alma fechada, no recôndito do seu ser. O homem da sua vida, não era dado a grandes manifestações de paixão, reconhecia agora, mas sempre sentira, ou julgara sentir da parte dele, uma forma diferente de expressar o amor. Pura ilusão.
O que mais a feria não era a traição em si. Sabia que o amor não é eterno e que precisa de ser renovado momento a momento. O pior que podia acontecer num casamento era tornar-se um costume que não questiona. Ela sabia que em determinados momentos, quase sem se dar por isso, deixamos esfriar a paixão e ficamos vulneráveis a qualquer desafio, que nos permita fugir da monotonia do dia a dia. Mas sempre acreditou, que entre duas pessoas a conviverem durante tanto tempo, teria de existir confiança para discutir a situação.
Há sentimentos que a razão desconhece, reconhecia, mas o que mais a magoara nesta história , foi ele ter dito e escrito à amante, que não podia separar-se da mulher porque tinha pena dela. Pena, que desculpa mais horrível. Até lhe custava a crer que Francisco tivesse sentido pena de uma pessoa, que ele mesmo sempre reconhecera como sendo mais firme e determinada do que ele.
Para desculpar a sua cobardia, Francisco não havia hesitado em ignorar tantos anos de vida em comum.
Na hora em que a morte o levou, procurara na mão da mulher, o perdão da companheira que sabia ter traído e enganado, e que estava, como sempre estivera a seu lado.
Agora, a lágrima que vira no seu rosto, a ansiedade no seu olhar, o gesto final, pareciam-lhe uma hipocrisia sem sentido ou algo mais que nem se atrevia a pensar.
Não sentia raiva da mulher por quem Francisco se apaixonara, sentia sim uma enorme mágoa e um desgosto profundo por ver ruir um grande amor. Pelos vistos não era assim tão grande.
Mas resolveu continuar. Quanto mais tempo pensava no assunto, mais se convencia que ainda faltava alguma coisa.
Retirou a carta nº.5 com recebimento datado de 12 de Novembro de 1998.
Voltou a traduzir:
“ Francisco,
Fiquei realmente surpreendida com a tua carta. Se bem a entendi, vens oferecer-me ajuda financeira para manter o nosso apartamento, cujo contrato termina no final do ano.
Eu não te pedi nada e dinheiro nunca aceitarei. Tens de reconhecer que com a ajuda financeira o tu queres é comprar a tua consciência. Eu não fui um encontro fortuito de uma noite. Não sou uma prostituta que possas comprar.
Eu paguei o meu preço, mas paguei em lágrimas e dor. Isso nunca vou esquecer.
Adeus
Marjorie
New York, Novembro 4, 1998
Maria da Glória, que pensara nada mais a surpreender, não foi capaz de evitar um rictus amargo.
Francisco, o seu companheiro de tantos anos, era uma homem amoral, oferecendo dinheiro à mulher que também enganara?
Não, havia qualquer coisa que não entendia, mas Francisco não fora assim. Também reconhecia que a mulher com quem o marido a traíra, e que mostrara tanto sentimento nas cartas que escrevera, não fora uma armadilha para um homem solitário. Não, Francisco não tinha sido uma vítima.
Tivesse ele sido sincero e contado tudo e não seria ela a dificultar a separação, pois sempre entendera que o casamento não é um contrato para a vida. Preferiria ter-se divorciado, com dor mas sem azedume, seguindo cada um o seu próprio caminho.
Doí-lhe muito o comportamento do marido. Enganar, mentir fugir às responsabilidades eram defeitos que não admitia. Talvez só na hora da morte ele se tivesse arrependido e buscado o perdão. Mas tarde, demasiado tarde.
Refugiou-se no seu trabalho junto das crianças que acompanhava. Passava a maior parte do dia na Instituição, ajudando, por forma a esquecer a dor que sentia.
Mas a noite era um suplício. Só, sem uma pessoa em quem confiasse para desabafar o que lhe ia na alma, começou a perder a alegria de viver.
A transformação era tão evidente que deixou de convidar as amigas para o chá, não tinha paciência para conversas de salão e também negligenciou o que ela sempre tivera muito cuidado em manter, a sua aparência, o seu bom gosto. Até a Empregada, com uma lágrima ao canto do olho, se manifestou preocupada, oferecendo-se mesmo para ficar mais tempo como companhia.
-Glória, recusou agradecida, atribuindo o seu estado, à vivência do luto e à solidão, garantindo que era apenas uma fase e tudo iria passar.
Passar? Mas se nem ela realmente acreditava fosse assim simples...









