
CAPÍTULO – VIII – A FUGA
Deixou passar alguns dias. Esteve tentada a rasgar as cartas, mas o ciúme e o despeito já estavam profundamente entranhados no seu ser. Decidiu continuar até ao fim, como se tivesse de beber, a última gota, de um copo cheio de fel. Tinha o pressentimento que a história não iria ter um fim feliz.
Voltou a abrir o envelope e retirou a carta marcada com o nº 3, assinalada como recebida a 14 de Setembro de 1998.
Traduziu, com mais dificuldade porque havia palavras manchadas. Terão sido lágrimas de quem escreveu ou de quem leu, pensou?
O texto, com uma ou outra falha, dizia:
“ My sweet Francisco,
Como sabias fui a Los Angeles fazer um desfile de moda, para o costureiro do costume. Foram só três dias, durante os quais, tentei por diversas vezes ligar-te, mas fui sempre enviada para a caixa de mensagens.
Liguei para a June e o Bill W....., nossos amigos e vizinhos, mas eles não sabiam nada. Tentei falar com a tua secretária na UN, já não era a mesma , e a substituta não sabia ou não quis dizer-me onde estavas. Por fim lá me foi dizendo que tinhas sido chamado com urgência ao teu País, para consultas diplomáticas.
Quando entrei no nosso apartamento, tremia como se um vento gélido fustigasse o meu corpo. Era uma premonição do que me esperava. O teu armário estava vazio e os teus objectos pessoais tinham sido levados. Ao ver que, até as nossas fotografias, tinham sido retiradas das molduras, fiquei sem nada que pudesse lembrar-me de ti.
Senti-me só, tão só, que tudo me parecia ter sido um sonho, e que este acabara. Chorei muito, sofri de mais.
De ti, do tempo que partilhamos o nosso ninho, apenas ficaram o teu odor e as recordações.
O que eu no fundo receava, tinha acontecido. Tinhas partido, sem uma palavra, como se eu tivesse sido um encontro ocasional. Mas nós partilhamos, o nosso amor durante dois anos. Eu dei-me, como nunca pensei pudesse acontecer. Tu deves ter fingido amar-me durante todo o tempo. Isso dói, dói muito e eu não merecia esta dor.
Mas o meu pesadelo ainda aumentou. Na caixa de correio, com data 2 de Setembro, tinha uma curta mensagem, onde me dizias ir partir, para não mais voltar e o pedido “ esquece-me”. Assim, friamente.
Diz-me, porque partiste? Diz que já não me amas e que eu fui apenas uma aventura. Talvez assim eu consiga refazer a minha vida. Mas tens de me dizer que nunca me amaste.
Tu foste o grande amor da minha vida. As juras de amor eterno que me fizeste, não podiam ser mentira. Ou foram e eu acreditei?
Tua Marjorie”
New York, Setembro,5, 1998
Maria da Glória respirou fundo. Já nada a surpreendia. A dor tão profunda estava a ficar adormecida. Ler as cartas era para ela como ler um romance, do qual não queria ser protagonista.
Estava fria, distante, ausente. Só o olhar não conseguia esconder a profunda tristeza que lhe ia na alma. Aquele não era o Francisco que ela conhecera. Ou era e ela nunca se tinha apercebido?
Abriu nova carta.
Carta nº. 4, recebida a 19 de Outubro de 1988.
“ Francis
Não sei, se ter recebido a tua carta foi bom para mim, porque não a percebi. Nela juras que nunca fingiste e juras que a paixão que sentiste, era verdadeira e se mantém ainda hoje.
Mas que regressaste a casa, definitivamente. Tinhas o propósito de falar com a tua mulher, mas não tiveste coragem para o fazer. Dizes, que ela não merecia sofrer, com a tua imprudência.
Imprudência, foi assim que classificaste as nossas longas noites de amor, a ternura nos nossos gestos, a alegria e a felicidade dos momentos, tantos, que vivemos.
Se isso é uma imprudência, o que é então o amor? Fizeste uma opção clara entre mim e o dever de respeito para com a tua mulher. Não foi uma opção entre uma e outra, foi uma escolha entre o amor por mim e respeito pela tua mulher.
Não percebo, nem compreendo, e creio que ela também não compreenderia, tão estranha opção.
Por ti, eu enfrentei a minha família. Pelo amor que sentia, lutaria contra tudo e contra todos, se fosse necessário. Porque para mim o amor é a vida, não é, nem nunca será, uma imprudência. Eu disse-te, quando passamos a viver juntos, que para mim, não há meio termo. Quando amo e me entrego faço-o com todos os sentidos e que sempre pensei receber o mesmo.
Não posso perdoar a tua cobardia, mas digo com o coração despedaçado, continuo a amar-te...
Marjorie
New York, Outubro, 10, 1998
Releu a carta e voltou a sofrer, imaginando o que o Francisco dissera de si. Provávelmente, que o casamento fora, também, uma imprudência ou um equívoco, e que só por hábito e comodidade se mantivera. Cada vez mais detroçada decidiu parar de ler as cartas. Só lhe estavam a fazer mal.
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