segunda-feira, 8 de novembro de 2010

OCASO




Tinha sido um dos tais dias. Dia de reunião do CA para analisar o 1º. Semestre e previsões para o segundo.
Começara pela manhã com apresentação e discussão sectorial. À volta da mesa, sobraçando dossiers e portáteis com dados, gráficos, mapas, power point,etc. todos os chefes de divisão. Cada um defendeu os números que apresentava, mas com nervoso pouco habitual. Afinal todos estavam muito longe dos objectivos a que se tinham comprometido, para poderem beneficiar dos prémios. Ensaiavam desculpas esfarrapadas, quando qualquer pessoa com bom senso sabia que os objectivos, eram uma utopia.
Depois dum almoço ligeiro a reunião com a Comissão Executiva.
Ao tomar conhecimento da situação do negócio o CEO chegou à conclusão habitual. Virando-se para o Director Financeiro e com toda a distância e frieza que lhe eram peculiares, determinou:
- É preciso cortar nos custos fixos, promovendo a reestruturação dos serviços administrativos, implementando a estratégia de serviços partilhados, devendo muitos deles serem prestados em regime de out-sourcing e em consequência promover a redução do número de funcionários.
Ainda pediu a palavra para contestar a decisão mas, todos os intervenientes aliviados por terem encontrado um responsável, aplaudiram a decisão do Chefe. Como era vindo a ser prática corrente.
Sentiu-se cansado sem força anímica. Queria chamar a atenção para os verdadeiros problemas da Empresa mas as palavras saíram-lhe enroladas e sem força. Desistiu.
Entrou no gabinete transportando os dossiers que deitou para cima da secretária. Sentou-se na poltrona, respirou fundo e cerrou os olhos.
”É preciso reduzir os custos com o pessoal. Apresente-nos as projecções para o fim do ano já com os resultados das medidas que vai tomar. Corte a direito.” Estas palavras martelavam-lhe a cabeça e feriam-lhe os sentidos.
A cabeça latejava e parecia rebentar.
O sr. Doutor precisa de alguma coisa? Perguntou da porta entreaberta a solícita secretária.
Não, tudo bem. Traga-me um copo de água e depois pode sair. Tenha um bom fim de semana.
As dores de cabeça iam aumentando a cada momento.
”É preciso cortar nos custos. Tem de reduzir o seu pessoal. Refaça as contas e ...,” mas será que não consigo ter um momento de paz, perguntou-se? Agitado e perseguido pelos pensamentos levantou-se e começou a caminhar na sala de parede a parede. Parou um pouco,bebeu um golo de água.
Aproximou-se da janela. Abriu os estores e olhou para o sol que mansamente se escondia no horizonte.
Tem graça, pensou, ocupo este gabinete à mais de quatro anos e nunca me tinha apercebido da beleza da paisagem.
Voltou para a cadeira, virou-a no sentido da janela, continuou a olhar o lento esconder do sol, e as nuvens esfarrapadas que se iam docemente deslocando, como barcos à vela, navegando à bolina.
”É preciso reduzir custos e promover despedimentos. É preciso....”
Mas esta dor de cabeça que não me larga! Fechou os olhos e sentiu algum alívio. Abriu uma gaveta da secretária e remexeu procurando uma embalagem de comprimidos que se lembrava de ali ter guardado.
Encontrou, meteu um, dois, talvez mais na boca, empurrou com água.
Sentiu-se melhor. Ajeitou-se melhor na cadeira, abriu os olhos procurando as nuvens ou seriam barcos? que tinha visto no horizonte.
O sol mergulhou e dele apenas via alguns raios que tingiam de diversas cores o céu.
Uma luz intensa, de cor indefinida, parecia guiar os barcos ou seriam nuvens? por um caminho estreito e escuro.
Cerrou lentamente os olhos, a luz continuava a indicar-lhe um caminho pelo qual se ia deixando, levemente, transportar e a dor de cabeça ia desaparecendo. Sentiu-se ausente mas feliz.
A cabeça descaiu sobre o peito. A respiração foi ficando suave, tão suave que nem se sentia. Deixou-se ir, nos barcos do seu imaginário. Flutuando leve, leve como uma pena embalada pela brisa.

Fim

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