
CAPÍTULO III – DESESPERANÇA
Assim, sentada numa poltrona da sala de espera de um escritório de advogados, Maria da Glória, calma na aparência, aguardava a entrevista préviamente marcada.
Estava vestida com bom gosto, com uma ou outra jóia, de qualidade, mas sem exagerar, fazendo sobressair os traços da beleza, que o tempo não tinha apagado.
Era uma mulher atenta ao que a rodeava, sempre se habituara a olhar de frente as pessoas, com um sorriso bonito que não deixava indiferente quem com ela convivia. E na realidade, sentia-se bem nesse papel.
O escritório era de uma Sociedade de Advogados, com especialistas nas diversas áreas do Direito, pelo que o movimento de clientes era grande. Enquanto esperava, olhava o tipo de pessoas que aguardavam na ampla sala de espera, a hora de serem recebidas e exercitava-se a calcular a razão de cada um. Aquele, olhava para um senhor circunspecto, folheando uma revista que retirara da maleta, é um homem de negócios; Outro, que olhava impacientemente o relógio, e se levantava amiudadas vezes para falar ao telemóvel, em voz sussurrada, deve ter problemas de ordem fiscal; Um casal de meia idade, sentado lado a lado, mas sem trocarem uma palavra entre si, devem estar num processo de divórcio.
Estava tão entretida, no jogo de adivinhação, que nem se tinha apercebido que a hora da sua entrevista já tinha sido ultrapassada. Foi por isso uma surpresa, quando uma simpática secretária, se lhe dirigiu, dizendo:
- Srª Drª Maria da Glória, o Doutor Leandro, telefonou agora, pedindo que lhe apresentasse as maiores desculpas por estar atrasado, mas a audiência, que está a decorrer, vai demorar mais do que o previsto. Todavia, estará aqui dentro de aproximadamente três quartos de hora. Enquanto espera, a Senhora aceita que lhe sirva uma bebida, café ou um chá?
- Obrigada mas não se preocupe comigo, não preciso de nada. A menina sabe, Glória sorriu, espero que não se importe que eu me dirija a si desta forma, a minha idade dá-me certos privilégios.
- Doutora, até é uma forma bonita de me chamar, mas se preferir pode tratar-me pelo meu nome, Ester.
- Ester, que lindo nome, é bíblico, sabe? Pois bem, Ester, digo-lhe que me divirto mais aqui a observar o movimento, do que em casa sozinha, por isso não se preocupe comigo.
-Então se me dá licença vou voltar para o meu gabinete. Virei chamá-la logo que que o Doutor Leandro entrar no escritório.
Aguardou mais alguns minutos, menos do que tinha previsto, até que a secretária lhe veio comunicar, que podia entrar, pois o Doutor já estava disponível..
O Advogado recebeu-a à porta, com um sorriso de simpatia e amizade e acompanhou-a até ao cadeirão, em frente da secretária.
- Maria da Glória, antes que tudo, quero pedir-lhe desculpa do meu atraso, mas foi um imprevisto processual que atrasou a audiência. Vejo também, que conseguiu ultrapassar, na aparência pelo menos, os momentos difíceis, e apraz-me muito a sua tranquilidade e serenidade. Há dias a Filomena censurou-me por não ter arranjado ainda tempo para lhe fazermos uma visita, como era habitual, mas sabe esta vida que levo rouba-me muito tempo. Espero que nos perdoe.
- Sim , eu compreendo, a vida nem sempre nos permite fazer o que queremos. Quanto a mim, o desgosto fica mas o caminho é em frente.
- É assim mesmo. Não se entregue à dor, tem uma vida pela frente e tem todo o direito a refazer a sua vida.Mas, a Glória, procurou-me, é por algo em que a possa ajudar?
- Sim penso que sim, mas peço-lhe que entenda que o procuro mais como amigo de longa data, do que como profissional. Quer dizer, o que lhe venho é pedir é uma informação, sobre um assunto que, Francisco, como seu amigo íntimo, lhe deve ter contado e que poderá não ter nada a ver com a sua actividade. Se tiver tempo disponível, deixe-me contar uma história.
- Por quem é Maria da Glória, tem todo o tempo que precisar.
- Então é assim:
- Eu sempre entendi o casamento como sendo uma partilha, isto é não poderá nem deverá haver equívocos ou segredos. Também é este princípio de confiança que eu penso deve existir entre amigos. Pensava eu que seria assim, mas agora tenho dúvidas e isso faz-me mal. Antes de morrer, Francisco recuperou um pouco a consciência, apertou-me com força a mão e deixou correr algumas lágrimas. O seu último olhar, fixo nos meus olhos, parecia querer transmitir algo. Um pedido, uma última palavra de amor ou, quem sabe, uma confissão. Foi uma impressão tão forte que ainda hoje a sinto. Mas ele não conseguiu dizer nada, estremeceu e partiu para sempre.
- Leandro, diga-me que segredo é que o Francisco escondeu de mim durante anos e que você como Advogado, amigo e confidente, estou convencida, conhece?
Antes de responder, digo-lhe que na passada semana, fui surpreendida pela existência, há mais de dez anos, de uma ordem de pagamento mensal de 1500 Dólares para um Banco nos Estados Unidos. Nunca antes ouvira o Francisco referir-se a este movimento e no arquivo que ele, cuidadosamente, mantinha, não existe nenhum documento relacionado com esta operação.
- Dez anos, Leandro, é muito tempo, para que o Francisco, nunca tivesse tido disponibilidade para me falar disto. A conclusão é óbvia, por algum motivo ele quis esconder-me este assunto. Espero, oh como espero e desejo que o pagamento se destine a liquidar algum negócio em que o Francisco se meteu enquanto esteve em Nova York , que tivesse corrido mal e que ele para não me preocupar, mo tenha escondido.
É com esta esperança que lhe pergunto, você Leandro o que é que sabe ?
O amigo mexeu-se na cadeira, visivelmente incomodado com a questão, e respondeu com a voz algo insegura o que lhe não era habitual.
- Maria da Glória, acha que valerá mesmo a pena, saber o que, eventualmente, o seu marido lhe ocultou durante tanto tempo? Será assim tão importante? Devo dizer-lhe que o pouco sei, mas, peço-lhe pense bem. Não será mais conveniente, esquecer a existência de tal operação, mantendo-a ou não em vigor, e guardar em troca as lembranças boas que acumulou durante tantos anos de vida em comum? A Glória sabe como eu, que por vezes uma pequena mentira que se ignora, pode ser menos dolorosa do que uma verdade que se conhece.
- Eu compreendo tudo o que me disse, Leandro, e já fiz essa pergunta a mim mesmo. Contudo estou convencida que na hora da morte o meu marido me quis pedir algo e já não foi capaz de o dizer. É só esse sentimento que me faz tentar saber a verdade.
- Assim sendo, só lhe posso dizer que, quando o Francisco regressou de Nova Iorque, me procurou, para o ajudar a encontrar um modo de, transferir mensalmente, uma determinada verba a favor de alguém, que não quis identificar, mas que, vivia no estrangeiro. Recordo, que na altura esta questão me surpreendeu, mas vi que ele estava tão embaraçado e constrangido, que optei por não lhe fazer qualquer pergunta. A Glória pode achar estranho, mas foi mesmo assim.
- Leandro eu quero acreditar no que me contou. Mas também sei que os homens têm tendência para se unirem perante situações de certo melindre para o casamento. Espero, sinceramente, que não tenha sido o caso.
Não o incomodo mais, cumprimentos à família. Estou certa de que ainda voltaremos a falar sobre este caso.
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