terça-feira, 23 de novembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES







CAPÍTULO II – A DÚVIDA

A sua memória vagueava agora pelo passado.
O seu encontro, dera-se numa festa de amigos comuns, quando ela, jovem estagiária de medicina, bonita e alegre, reparou num jovem triste, sentado num recanto da sala. Quis o destino que se tivesse aproximado daquele homem e, intrigada, lhe tenha perguntado se não aceitava ir dançar. Para sua surpresa, ele aceitou com um sorriso tímido e envergonhado.
Não mais se largaram e sentiram uma atracção que os levou, meses mais tarde, ao casamento.
O Francisco já trabalhava. Licenciado em Direito, como era da tradição familiar, ingressara no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Filho de família de costumes muito tradicionais, tinha perdido a Mãe e pouco tempo depois o Pai. Sentia-se só na vida, sem familiares próximos e com alguma dificuldade em arranjar amigos.
Herdara fortuna considerável, pelo que lhes foi possível comprar e restaurar a casa, que escolheram para viver.
Nas férias, viajavam muito, quase sempre de automóvel, pois ambos gostavam de percorrer os caminhos, fora do circuito habitual dos turistas. A França, com os seus Castelos e o verde dos campos era um destino percorrido vezes sem conta. Depois a Itália, das pequenas vilas e lugares escondidos.
Também não podiam deixar de visitar museus, onde pudessem admirar pintura dos períodos impressionista e expressionista, os seus preferidos.
Quando regressavam, traziam sempre um quadro, de autor desconhecido, que tivessem encontrado, numa pequena loja de antiguidades, algures, no seu percurso,ou uma estatueta, um livro, ou um ou outro artigo que lhes chamasse a atenção. E assim, iam decorando a casa.
Sacudiu os ombros, como se quisesse sair daquele sonho em que mergulhara.
Encheu-se de coragem, prometeu a si mesma que fecharia o baú das recordações, porque teria de aprender a viver sem o companheiro, e porque sentia que lhe devia isso pelo amor e partilha que sempre os havia ligado.
Aliviou o luto no vestir, voltou a ter cuidado com o corpo e essa transformação fez-lhe bem. Gostava, de novo, de se ver ao espelho. Pouco a pouco, voltou a ser a mesma pessoa elegante, disponível e determinada, como sempre fora.
A quarta feira era o dia que reservava para Eulália, a empregada que estava com eles desde o casamento, fazer a limpeza e arrumação da casa.
Ela própria costumava dar uma ajuda, mas desta vez decidiu que tinha de ler a correspondência, colocada, numa bandeja em cima da secretária, e que deixara acumular.
Muitas das cartas eram do Banco, extractos de conta, despesas pagas por débito em conta, saldos dos cartões de crédito, e até movimentos que não entendia. Nunca se havia preocupado com as questões bancárias e financeiras. Isso tinha sido sempre, tarefa do marido, mas agora tinha de aprender.
Optou por falar com o Banco para se inteirar de tudo o que dizia respeito às suas finanças pessoais, pediu uma entrevista que foi marcada para o dia seguinte.
Tampouco conhecia o seu gestor de conta mas a simpática senhora que a atendeu conhecia bem o dossier e fácilmente passou em revista todas as obrigações ligadas às contas. Como chegassem à conclusão que havia contas cuja existência já não se justificava acordaram encerrar essas e transferir os fundos para aplicações mais rentáveis. Quando a gestora lhe perguntou se a ordem de pagamento mensal de 1500 dólares, ligada à conta do marido, também era para cancelar, ficou perturbada e sentiu o coração bater mais acelerado. Recomposta da surpresa, era a primeira vez que ouvia falar naquela operação, respondeu, que era para manter, mas ligada à nova conta. E já agora, perguntou, esse assunto era tratado pelo meu marido e eu, por preguiça, ainda não pus em ordem a papelada, diga-me os dados da operação.
A gestora consultou o processo no programa de computador, mas os dados que encontrou não eram claros.
- Pois, Senhora Doutora, agora só lhe posso dizer que ela começou a ser feita já há anos. Mas eu vou pedir o dossier e posso enviar-lhe o histórico das operações.
- Agradeço-lhe muito, a sua gentileza vai poupar-me uma série de trabalho, respondeu.
Despediu-se e saiu da agência bancária, com a dúvida instalada e associada a uma estranha picada de ciúme. Não se lembrava de Francisco lhe ter, em algum momento, falado do assunto. Assim imaginava que era qualquer coisa que ele lhe quisera esconder. Mas o que mais a surpreendia era que, dez anos depois, dele ter regressado da comissão de serviço em New York, a operação continuasse a ser realizada.
Tentou convencer-se a si mesma que Francisco se esquecera. Porém, quando recebeu do Banco o dossier completo com o detalhe de todos os movimentos, e cópia das notas de débito referentes a todas as operações, a dúvida e a suspeita, ficaram, definitivamente instaladas. É que no arquivo, tão organizado, que o marido lhe deixara com os documentos bancários importantes, não encontrou um único, referente aquela operação.
Decidiu ir falar com o advogado e amigo, pois Francisco que era tão cuidadoso, não faria nada sem se aconselhar com ele. Penso que ele poderá esclarecer tudo.
Espero e desejo que sim.

Sem comentários:

Enviar um comentário