14 – TRÊS ANOS DEPOIS
Trabalhou febrilmente para concluir os seus estudos na Faculdade de Letras de Coimbra e licenciou-se com uma das notas mais altas que havia registo.
Todavia nada na vida o distraía do seu propósito. Esquecer o passado e olhar o futuro. Não se havia adaptado à cidade. Sempre se sentira um intruso e tinha consciência que ele tinha sido o principal, senão único, responsável. Afinal, perdera-se porque não tinha tido força para resistir a espiar a vida dos outros. E isso teve um preço.
Já não lembrava o espírito inquieto que o havia levado e tentar encontrar o mundo que se escondia para lá do horizonte. Pior do que isso, era que nem sequer o havia tentado.
Decidiu voltar a Trás os Montes, como prometera, e lá sem o brilho e as luzes da cidade,mas com a tranquilidade dos grandes espaços, recomeçar a viver e partilhar o saber.
Para o conseguir decidiu optar pela carreira do ensino. Foi por isso que aceitou ser um simples professor de Português no Liceu de Vila Real.
Antes de partir, voltou ao Porto para se despedir dos Tios e confirmar que as feridas estavam cicatrizadas. Deu uma volta pela cidade e à tarde entrou no café Majestic, sítio que ele nunca mais esquecera. Estava cheio, já fazia algum frio, naquele fim de Setembro de 1957. No café já se ouvia falar do desentendimento entre o Craveiro Lopes e o Salazar. A expectativa era grande.
Dizia-se, sem medo, que a oposição iria apresentar o General Delgado como candidato e que Salazar não iria manter a confiança política no anterior Presidente e se preparava para levar a votos uma figura apagada e obediente, chamada Américo Tomás.
Mas a política não era assunto para ele. Contudo não podia deixar de reparar que havia muita agitação e que as pessoas começavam a perder o medo de falar. Algo se anunciava.
Ia sair do café, quando sentiu uma mão tocar-lhe no braço e uma voz de mulher perguntar:
- Ainda se lembra de mim?
Estemeceu, mesmo sem olhar reconheceu a voz e por momentos temeu o retorno dos velhos fantasmas. Sim claro que me lembro D. Maria Madalena, respondeu com voz trémula.
Olhou para ela, mas como estava mudada. Os cabelos esbranquiçados e revoltos, o rosto magro onde sobressaiam os olhos grandes mas pardacentos. Parecia uma figura de cera, frágil, açoitada por um vendaval.
- Foi neste café que falámos, já lão vão uns anos, acrescentou. Mas como o tempo passa por nós não é verdade?
- Sim, o tempo não perdoa. Aliás a vida também não.Vejo que está de saída e eu também. Faça-me companhia e andemos um pouco pela cidade, pediu Maria Madalena.
Andaram sem destino e em silêncio, até que Maria Madalena, virando-se de frente para ele diz:
- Sabe, Felizberto, vou confessar uma coisa que já não tem importância. Eu sabia que o senhor lia a minha correspondência com o André. Desconfiei quando o vi rondar uma morada das que eu utilizava para receber as cartas, confirmei quando me apercebi que as cartas que recebia eram abertas e fechadas um pouco desajeitadamente, mas nunca lhe quis mal por isso. Ao menos tive uma testemunha do nosso sofrimento, alguém que, se não fosse insensível, também compreenderia as nossas amarguras.
Felizberto sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Estremeceu, mas não tentou negar. Assumiu e respondeu:
- Sim li e vivi, de que maneira, todas as cartas do vosso amor. Ter aberto a primeira carta foi um acidente e depois foi o caminho que me ia levando à perdição. Demorou muito tempo, a luta que dentro de mim se travou. De um lado a inexperiência de vida e o prazer ingénuo que me dava a leitura das vossas cartas de amor. Do outro a necessidade mórbida de me alimentar com os vossos segredos e o vosso sofrimento.
Tinha guardado cópia de tudo o que tinha lido, das cartas e dos poemas. Eram o meu tesouro escondido. Quando me senti à beira do abismo, e regressei a casa como o filho pródigo, fechei tudo numa pequena caixa que lançei ao Rio, pedindo que as águas a levassem à vossa praia. Com ela lancei ao Rio a chave e uma grande parte da minha vida. Demorei muito tempo, mais de três anos, a esquecer aqueles meses terríveis que, confesso, deixaram feridas no meu peito, que só agora estão cicatrizando.
Sentaram-se num banco de jardim. Maria Madalena pegou na mão de Felizberto dizendo:
- O destino é cruel, muito cruel. Afinal não fomos só nós, os amantes trágicos, os que tanto sofremos. Também fizemos sofrer a quem teve a sensibilidade de nos ouvir ou ler. Peço perdão.
- Isso não, Maria Madalena, não me peça perdão. Sou eu que queria e deveria fazê-lo. Eu fui o intruso na vossa vida. E dessa culpa nunca me irei esquecer.
Soube pelo seu Pai que teria ido trabalhar para Paris. Na altura fiquei feliz. Agora, nem tenho coragem para perguntar o resto da vossa história e não sei sequer se terei forças para a ouvir.
- Não, Felizberto, não vale a pena. Quando, ao fim de tantos anos conseguimos algo com que sonhámos, parece que o destino se compraz em destruir tudo. As cartas de amor, que foram o nosso alimento, não mais serão escritas. Só lhe digo que quando se nasce trazemos ou não uma estrela. A estrela da vida. Eu nunca encontrei a minha, desde aquela noite em que me despedi do André, na praia dos nossos sonhos. Em que perdi o norte e me perdi.
Quando o muro se me abriu foi tarde. Paris foi apenas o enterrar definitivo dos nossos sonhos. O ruir de tudo, o ponto final. O corvo negro apenas foi o mensageiro.
“Tudo o mais foi naufrágio”, lembra-se?.
Sem dizer mais nada levantou-se cambaleando, e desapareceu na névoa que começava a cair sobre a cidade. Felizberto parecia ouvir, ao longe um ruído estranho, parecia ser um chorar às gargalhadas.
Levantou-se. As mãos estavam frias pelo que procurou o calor dos bolsos do casaco. Encontrou um papel dobrado. Abriu e reconheceu a mão trémula que o havia escrito. Maria Madalena, deixara-lhe, escondido no bolso, um adeus de despedida.
Hesitou. Teve medo de reabrir feridas recentes. Compreendera que os dois amantes, cujo tormento acompanhara, não se tinham reencontrado.
André teria tido a morte pressentida; Maria Madalena a loucura de continuar a viver despida de sonhos. Como um náufrago.
Desdobrou o papel, sentia que lhes devia isso. Mais um poema. E à luz do candeeiro da rua, sentindo o vento frio que lhe apagava a chama, que de novo lhe incendiava o corpo, parou e leu o poema final.
O CORVO
Quando o meu corvo, trémulo, doente,
-Como quem sofre as minhas agonias-
Naquela noite veio, amargamente,
Dizer-me, soluçando, que morrias,
Percebi-lhe no olhar as nostalgias
Da noite negra, sem luar, fremente,
Aonde as suas asas luzidias
Tomaram cor misteriosamente...
E à luz medrosa do candeeiro exausto,
Bebendo a minha dor num longo hausto
Mais triste que o soluço das nortadas,
Analisei a mágoa de nós dois
Para ver qual sofria mais ... depois ...
Céus! Desatei chorando, às gargalhadas!
(José Duro)
Dobrou o papel, guardou-o no bolso como quem guarda uma recordação, uma memória. Deambulou pela noite fria e húmida. O romper do sol, ainda tímido deu-lhe algum alento. Seguiu na sua direcção e encontrou o seu caminho de regresso a casa.
F I M
J. Ariemal
Agosto, 2010
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