
CAPÍTULO 6 – A PRIMEIRA CARTA
Arrumou as recordações temporais, que só lhe serviam para entender sinais, decidiu-se a abrir e ler a primeira carta.
Esta era de uma 1 folha apenas, manuscrita por mão feminina, numa letra elegante mas pouco legível e escrita em língua Inglesa. Teve alguma dificuldade na leitura, por isso resolveu traduzir o texto , deixando o espaço em branco, para uma palavra ou outra que não conseguisse perceber, e que completaria, mais tarde, interpretando-a pelo sentido da frase.
A carta era uma declaração, uma afirmação de amor.
“ Meu grande, grande amor,
Para não estar sozinha durante o período do Natal, tirei uns dias de férias e vim passá-los a casa dos meus Pais em Montreal. É daqui que te escrevo.
Gosto de estar com os meus Pais e irmãos mas a minha Mãe, já se apercebeu que eu estou inquieta e ausente.
Perguntou-me se o meu comportamento se devia a aborrecimentos com o trabalho ou se era um mal do coração.
Não consegui e não quis esconder e confessei que estava perdidamente apaixonada.
A Mãe disse-me que estar apaixonada é maravilhoso mas que pode causar dores e sofrimento se a paixão não for correspondida, ou algo correr mal. Nisso estou à vontade pois sei o quanto me amas.
Tenho muitas saudades tuas. Vivo a contar os dias que faltam, para te envolver nos meus braços, beijar-te, e gritar o meu amor.
Ainda te lembras do nosso primeiro encontro? Foi casual e fortuito num sábado de manhã, a passear no Central Park. Estava um dia cheio de sol, mas as árvores tinham começado e perder as folhas, atapetando os passeios com um manto doirado. Conversamos, deste-me o teu cartão e eu dei-te o meu número de telefone.
Confesso, que tinha a esperança de te encontrar de novo. Mas tão depressa não. Foi nesse mesmo dia, que recebi o teu convite para jantar. Aceitei com alegria, porque acreditei que o nosso encontro, tinha sido, uma partida do destino.
Eu sinto e acredito que o nosso encontro foi talhado no céu. Nós fomos feitos um para o outro e mais tarde ou mais cedo, a chama que se acendeu naquela manhã no parque, iria, teria de ir, iluminar os nossos caminhos.
Depois, bem depois, começou o nosso romance, tão forte e intensamente vivido.
Também tens saudades minhas? Sei que sim, pois a paixão que nos une, vai muito para além da razão.
Volta depressa. Preciso da volúpia dos teus carinhos, sinto falta do calor do teu corpo.
Tu és a razão do meu viver e eu sem ti, sinto-me perdida.
Aí nesse teu mundo, onde me disseste faltar-te algo, não te esqueças que o meu coração, o meu corpo fremente, são teus.
Feliz Natal.
Amo-te mais do que à vida.
A tua Marjorie.
Montreal, Dezembro, 20, 1996
Meu Deus, exclamou Maria da Glória. O suor escorria-lhe pelas fontes, o corpo tremia como árvore açoitada pelo vento bravio. As lágrimas caíram-lhe pela face e sentiu-se desamparada. Olhava à sua volta e tudo o que a rodeava lhe parecia irreal. Os quadros que haviam comprado, as fotografias do casal, o maple onde ele se sentava a ler enquanto ela cuidava da casa, tudo aparecia agora encoberto pelo nevoeiro da tristeza. Parecia que mergulhara num mundo que não era o dela, como se de um pesadelo se tratasse. Queria gritar que o que lera não era a verdade, mas os gritos não passavam de gemidos de dor, porque as palavras que lera nada escondiam. Francisco traíra e vivera mais de dez anos na sombra da traição. Como é que ela nunca se apercebera, não conseguia entender. Custava-lhe muito ter de reconhecer que, quem sabe, também ela tivesse contribuído para o que acontecera. Talvez se tivesse acomodado e deixado que a vida dos dois fosse um hábito.
Releu de novo a carta, como se procurasse, com angústia, um sinal de engano.
Mas não havia dúvidas, era uma carta escrita por uma mulher apaixonada, para alguém que lhe retibuia a paixão. Toda a vida, construída com base na confiança, na partilha, no amor, ruía agora como um frágil castelo de cartas. E o estrondo da verdade, feria-lhe os ouvidos e teimava em permaner, entranhado, no fundo do peito.
Lamentou não ter seguido o conselho do Advogado. Mas, para além da dúvida que a devorava, alimentara sempre, a esperança, de que tudo não passasse de um erro ou de uma confusão. Agora é tarde, para recriminações. O mal está feito e a dúvida deixou de o ser. Precisava de seguir em frente. Desistir agora, não era capaz. O grande choque já tinha acontecido. Tudo o resto que vier, não a iria ferir mais. Afinal, ganhar a confiança numa pessoa não é fácil, é preciso quase uma vida, mas para perdê-la, basta um instante. E ela deixara de acreditar.
Magoava-a reconhecer que Francisco, quando cá estivera no primeiro Natal, e lhe falou na hipótese de o acompanhar, não fora mais do que um acto de hipocrisia. Nessa altura, ele já vivia com outra mulher.
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