
CAPÍTULO IV – A DECEPÇÃO
Maria da Glória voltou a casa mais preocupada do que saíra. A esperança numa explicação aceitável e compreensível, desvanecera-se. O coração dizia-lhe que o segredo que o marido escondera tinha motivos pessoais, e isso arrepiava-a. Não podia admitir que, ao fim de tantos anos tivesse de reconhecer que, Francisco tinha segredos que guardara só para ele.
Ainda assim, saber que os movimentos em dinheiro começaram algum tempo depois do seu regresso de Nova Iorque precisamente sete meses após, já era uma indicação importante, embora inquietante.
O que se passou não sabia, mas foi de certeza naquela cidade, e sentia um mal estar, talvez uma premonição, do que pudesse vir a descobrir.
Era uma pessoa determinada e, apesar de reconhecer a bondade da sugestão do Advogado para esquecer, receava não conseguir conviver com a dúvida.
Voltou para casa, determinada a analisar todos os documentos, existentes no escritório. Aproveitaria para com a ajuda da empregada fazer uma limpeza as centenas de livros. Decidiu que tal tarefa, iria começar já no dia seguinte.
Dormiu mal. Teve sonhos menos agradáveis e acordou cedo, hesitante em continuar a pesquisa a que se propunha. Lembrou-se das palavras do Advogado e não deixou de lhe reconhecer sabedoria e bom senso. Mas a curiosidade foi mais forte. Quando a Eulália, a empregada de tantos anos chegou, já ela se encontrava sentada à secretária, vasculhando papelada antiga, rasgando o que não tinha interesse e pondo de parte documentos e cartas que queria ver com mais atenção. Criou mesmo um dossier onde, foi arquivando por data e assunto os papéis que podiam ter alguma relevância.
- Oh Drª Maria da Glória, então a senhora está hoje tão atarefada que nem se lembrou de tomar o pequeno almoço, ouviu dizer a empregada à entrada do escritório.
- Tem razão, Eulália mas como dormi mal, levantei-me cedo e vim ocupar o meu tempo a arrumar a secretária. Prepare-me qualquer coisa para eu comer, um sumo, um chá e uma torrada e depois venha para aqui, ajudar-me a limpar e arrumar os livros.
Fez uma pausa para tomar o pequeno almoço, e distribuiu as prateleiras da biblioteca uma para si e outra para a empregada, recomendando que os livros depois de limpos deveriam ser colocados no mesmo espaço.
- Eulália,faça a limpeza de forma ordenada para respeitar a ordem em que os livros estão agrupados, recomendou. Hoje, vamos despachar apenas estas duas prateleiras. Não são grandes e por isso uma manhã deve dar. Durante a semana iremos arranjar tempo para tratar das outras, seguindo o mesmo critério. Só trabalhamos da parte da manhã. Quanto ao almoço a Eulália não se preocupe, telefonaremos e encomendar do restaurante habitual. O sr. Amílcar arranjará maneira de nos fazer chegar a comida, quentinha, à hora que se indicar. Penso que em quinze dias teremos limpo, todas as estantes e os livros.
E agora mãos à obra.
O trabalho parecia bem mais fácil do que a realidade comprovou. Já era meio dia e só iam a meio.
- Eulália, enganei-me nas minhas previsões. Hoje ficamos por aqui. Depois iremos andando, sem pressas porque já me apercebi que o trabalho vai demorar mais do que eu estimei. Quando chegarmos às prateleiras mais altas, em que teremos de utilizar o escadote que está naquele canto, atrás da porta, vamos pedir ajuda, pois é mais prudente evitar descer e subir a escada.
- Se a Doutora quiser, quando for necessário, eu peço ao meu marido, para vir fazer o trabalho nas prateleiras mais altas, propôs Eulália.
- Excelente ideia, combine com ele os dias e as horas em que lhe dá mais jeito e nós ajustaremos o nosso horário em conformidade.
- Fique descansada, minha senhora, hoje à noite falo com ele. Naturalmente que só poderá fazer o trabalho aos sábados.
- Não se preocupe Eulália, se ele puder vir ao sábado, não vejo qualquer problema.
No dia seguinte, a empregada enquanto limpava o pó, dos móveis do escritório, lembrou que o marido tinha concordado em dar uma ajuda e que no próximo sábado, viria começar o trabalho. Ele sugeriu começar às 9 horas, a Doutora acha bem?
- Sim cá os espero, respondeu.
Foi, precisamente no sábado, que ao esvaziar de livros, uma prateleira bem alta, o senhor António, encontrou um envelope grande, colado com fita cola, guardado no interior dum livro de grande volume. Ao retirar esse volume para o limpar, o envelope caiu ao chão. Pegou nele, aproximou-se da secretária onde a Doutora relia uma carta, em papel já amarelecido pelo tempo, e disse:
- Minha Senhora, olhe encontrei este embrulho, metido dentro do livro grande que estou a limpar!
Maria da Glória empalideceu, estendeu a mão trémula, pegou no envelope, deu-lhe uma rápida vista de olhos. De seguida guardou-o na gaveta.
- Obrigada sr. António, isto devem ser documentos, hoje sem importância e que ali estavam guardados há tanto tempo que já me havia esquecido. Calculo que deve ser a escritura de compra desta casa, imagine.
Aparentou desinteresse, mas na realidade, o coração batia descompassadamente. Pediu à Eulália um chá de camomila e a caixinha de comprimidos que estava na gaveta da mesa de cabeceira. Tinha de tomar um calmante, pois estava a sentir-me muito cansada.
A Senhora está pálida, quer que eu fale ao médico?
- Não Eulália, isto vai já passar com o chá e o comprimido. Depois é só descansar. Tomou a tisana, engoliu o comprimido, saiu do escritório e foi-se reclinar no sofá da sala. Fechou os olhos para que a empregada não visse, que eles estavam marejados de lágrimas. Mesmo sem saber o que continha o envelope, sentiu que iria sofrer alguma decepção. O Francisco guardara, escondera, documentos num local que sabia não lhe ser de fácil acesso. Era um mau sinal de um segredo que só ele conhecia.
Mais uma vez lhe vieram à lembrança as palavras do Advogado. Um segredo pode não valer a pena conhecê-lo. Com certeza, deixando-o esquecido no meio da vida, pode ser menos doloroso que a verdade que ele esconda. Tudo passa e com o tempo iria esquecer. Bem tentou.
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