segunda-feira, 22 de novembro de 2010

UMA HISTÓRIA DE AMORES



CAPITULO I - A SOLIDÃO

Lisboa, Fevereiro de 2009


Naquele domingo de Fevereiro, chuvoso e triste, Maria da Glória acordou bem cedo. Dormira mal, tivera sonhos desagradáveis e ao acordar sentira, agora mais do que nunca, a falta do marido.
Este falecera há menos de um mês, repentinamente, mas ela recuperara bem do choque. Já sabia que a dor do luto, se manifesta mais tarde. Nos primeiros tempos a companhia dos amigos e o trabalho com o funeral, não lhe deixaram muito tempo para pensar.
Agora, sofria de solidão, naquela casa, que havia partilhado durante trinta anos, e lhe parecia agora tão fria.Andou a percorrer o apartamento, sem se fixar num espaço. Todos eles lhe traziam recordações.
Habitava um terceiro andar, numa casa antiga, que tinham comprado aquando do casamento e que haviam mandado recuperar, e transformar ao longo da vida. Tinha uma excelente localização, na encosta da Lapa, com uma sala bem ampla, de janelas viradas ao rio.
Todavia, achava que a sala mais acolhedora, o refúgio que agora procurava, era aquela que tinham mandado transformar em biblioteca e escritório. As paredes estavam apaineladas em madeira, com divisórias bem calculadas, de forma a receberem os livros de que ambos gostavam. E eram muitos. Junto da janela, um maple de cabedal, era o lugar preferido do marido, para se sentar a preparar e saborear o cachimbo, aquele ritual que a fazia sorrir, enquanto pegava num livro e bebericava de um copo de scotch, da sua marca preferida.
Ela optava por um cadeirão, onde se anichava em almofadas, folheando uma revista ou relendo os seus livros preferidos. Poesia sobretudo. Já o Francisco, tinha uma verdadeira paixão por livros de história, filosofia e ensaios, escritos em Português, quando encontrava uma tradução, que lhe agradasse ou então em versão original desde que em Inglês Francês ou Alemão, línguas que falava fluentemente.
Foi aqui, que decidiu tomar o frugal pequeno almoço, que preparara e transportava num tabuleiro. Olhando os livros, e as fotografias colocadas na secretária, sentia-se menos só. Da secretária, pegou na fotografia do marido, que ela tinha mandado emoldurar, e lhe oferecera de presente, e mirou-a embevecida. A foto, tirada quando ele completara quarenta anos, mostrava o Francisco que ela queria guardar na memória. Elegantemente vestido, cabelo ainda farto mas a ficar grisalho nas têmporas e um discreto sorriso nos lábios e nos olhos. Adorava aquela fotografia e lembrava, quanto lhe tinha custado, convencê-lo a abandonar o ar fechado, que parecia uma defesa, como quem receia que a objectiva lhe roubasse a alma. Maria da Glória, atribuía esta atitude a um reflexo da timidez habitual no marido.
Quando lha ofereceu, lembrava agora com saudade, dissera-lhe:
- Aqui tens a foto, do meu galã favorito, e ele, esboçando um sorriso de agrado comentou que nunca vira aquele actor.

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