sexta-feira, 19 de novembro de 2010

UM DIA DIFERENTE PARA UM HOMEM PERDIDO

Os dias eram iguais a tantos outros. A mesma rotina das manhãs, o mesmo trabalho, as mesmas caras, jantar sozinho como sempre e adormecer a ver Televisão.
Tudo se repetia desde há quanto tempo? Já nem se lembrava com exactidão. Fez um esforço e a memória falhou. Sabia apenas que tudo se passara numa noite chuvosa e fria. Só não sabia o quê.
Mas, sabia que foi nesse dia que a sua vida mudou, tornando-se no fastidioso correr do tempo que agora vivia. Sem objectivos, sem projectos, sem dar atenção ao que o rodeava, vivendo dentro de um casulo que pouco a pouco ia estreitando e a que ele se ia moldando, mesmo sem dar por isso.
Por vezes pensava que qualquer coisa tinha de mudar, mas nunca definiu o quê e como.
Os fins de semana eram um verdadeiro martírio. Saía ao sábado para almoçar no mesmo restaurante à porta de casa, comia o que o dono lhe sugeria, depois dava umas voltas num pequeno centro comercial na rua ao lado, via as mesmas caras, olhava as mesmas montras, lanchava na mesma pastelaria onde comia sempre o mesmo bolo sem sabor, passava no super mercado e comprava meia dúzia de coisas para que, no Domingo, o dia de maior solidão,nem ter de sair de casa.
Porém, naquela sexta-feira , um dia igual a tantos outros, sentiu-se mais só no mundo. Estava frio e andava muita gente nas ruas atarefadas de loja em loja. Não percebia o porquê. Andou a vaguear perdido entre a multidão. Sem rumo e sem destino.
Mas o hábito de tanto tempo encaminhou-o para comboio do Cais do Sodré e até saiu em Oeiras como sempre fizera. Chegou a casa.
Estendido no sofá, que era também a sua cama, pois o quarto tinha a porta fechada, nem sabia porquê nem há quanto tempo, olhou para o vazio da sua vida e sentiu que tinha de se reencontrar.
Não tinha recordações, nem memórias, havia um bloqueio que nunca tinha conseguido ultrapassar.
Talvez fugindo do dia a dia, fosse encontrar a memória perdida e para isso era preciso partir.
Encheu-se de coragem, sentou-se a uma mesa e começou a apontar tudo o que tinha de fazer antes de viajar.
Ficou aterrorizado. Até para partir era preciso uma carga de trabalhos.Tinha de vender e acabar de pagar a casa onde vivia; Tinha de negociar com a entidade patronal a sua saída, pois não queria sair por uma porta pequena; Tinha de dar destino aos móveis, e aos livros, às televisões, tinha 3 aparelhos,etc. Isto é muita coisa para a minha cabeça. Desistiu.
Deitou-se mais cedo do que era habitual mas não conseguia dormir. Tomou um, dois comprimidos e caiu num sono profundo.
Mas o sono foi um doloroso pesadelo.
“Fazia nevoeiro, muito nevoeiro, a estrada era estreita mas já estava perto do destino. De repente uma camioneta fora de mão empurrou-o para a beira a o carro resvalou pela encosta íngreme e rochosa, batendo aqui e ali, virando-se uma vez e outra só parando com estrondo num penhasco mais alto. Lutou e consegui sair pela janela. Deu a volta ao carro e foi tentar abrir a porta do lado onde seguia uma mulher, cujo rosto não distinguia.
Consegui retirá-la e com ela nos braços começou a tentar subir declive acima, gritando por socorro. Ninguém ouvia. A subida era difícil, escorregava com frequência e voltava quase ao ponto de partida. Levantava-se e tentava de novo. Por mais duas ou três vezes.
Até que completamente esgotado e enregelado parou junto a uns arbustos, sentou-se e com o casaco tentou aquecer o corpo frio da mulher que transportava nos braços. A voz de tanto gritar já não lhe respondia. Tentou recomeçar a subida, mas não teve forças para mais. Tentou de novo, rastejou mais uns metros e...”
acordou estendido ao lado do sofá.
Estava perdido. Deixou-se ficar deitado, tentando colocar em ordem a sua cabeça. Ensopado em suor e com a visão a ficar nublada. Teve um minuto de discernimento e compreendeu que precisava de ajuda. Por sorte encontrou o norte e acendeu a luz. Caiu e não teve forças para se levantar. Foi rastejando pelo corredor até a porta da rua. Conseguiu pôr-se de joelhos, abrir a porta e sair para a escada. Fez um derradeiro esforço e bateu na porta do vizinho em frente. Depois desfaleceu.
Acordou, sentiu-se preso e quis libertar-se e logo um sinal sonoro começou a tocar. Olhou em redor, tudo era branco e desconhecido. Há sua volta,duas pessoas vestidas de branco tentavam colocar-lhe as ligações que arrancara.
Mas ele sentia-se bem, tranquilo, pela primeira vez em muitos meses. Sorriu para as pessoas e porque as forças lhe faltavam, murmurou:- Obrigado, hoje, finalmente foi um dia diferente. E partiu.

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