
CAPÍTULO – VII – A SEGUNDA CARTA
Abriu o segundo envelope. Também tinha anotada a data da recepção, 13 de Agosto de 1997. Francisco, gozava o período de férias de verão. Pela primeira vez, não se mostrara entusiasmado, quando lhe sugerira que fossem passear, como era costume. Dissera que fora, já ele tinha estado mais de seis meses e que, agora, o que precisava era de ficar em casa, conversando, lendo e matando saudades.
À medida que ia lendo e traduzindo o texto, da carta nº. 2, Glória sentia um maior aperto no coração, um desmoronar da esperança, ténue, que ainda teimava em manter viva.
“ Meu amor,
Não sou capaz de te explicar a sensação, que sinto ao acordar, procurar o teu corpo e encontrar o vazio.
Desperto a pensar em ti, no que fazes, e sinto a picada do ciúme, por te saber com outra.
Tenho a certeza de que ao fazeres amor com a tua mulher, fechas os olhos e é em mim que estás pensando. Quero muito acreditar.
Amo-te e desejo-te tanto. O meu corpo reclama e está sedento das tuas carícias.
Tenta vir o mais cedo possível, arranjarás com facilidade uma justificação.
A cidade do nosso amor, está muito quente, vazia, não tenho desfiles para este período e portanto nada me distrai.
Olho a tua fotografia, que me faz companhia, nas preciso de ti para apagar esta chama ardente, que me consome.
Vem depressa, eu espero-te.
A tua, sempre tua, Marjorie.
New York, Agosto, 5, 1997”
Acabou de ler, e com lágrimas nos olhos, dobrou a pequena carta e voltou a colocá-la no envelope correspondente.
Não teve coragem para continuar a ler as outras. Sentia-se vítima de um terramoto, com o mundo a cair sobre a sua cabeça. Precisava de recuperar o auto domínio. O coração estava demasiado ferido e sangrando.Não podia deixar, que fosse ele a comandar os sentidos. Era preciso parar, pensar e colocar em ordem tudo o que lera. Embora tarde, reconhecia que certos indícios de uma alteração comportamental, que notara no marido, no período em que ele vivera em Nova York e mesmo após o seu regresso, deviam ter uma origem.
No primeiro Natal, e nas férias do verão seguinte, recordava agora, viu-o mais alegre e descontraído. Comentara até com as amigas, que a grande cidade lhe estava a fazer bem. Como elas iriam rir nas suas costas, se soubessem o porquê.
Quando regressou, definitivamente, no princípio de Setembro de 1998, voltou a ser o homem calado e reservado que ela sempre conhecera. Estava com ar abatido e teve problemas com os colegas do Ministèrio. De tal forma que decidiu não ter disposição para continuar a fazer o trabalho que lhe tinha sido destinado, pediu uma licença sem vencimento e mais tarde a reforma.
Ela deveria ter sabido interpretar aqueles sinais. Não o soube, e agora como se arrependia. Percebera o cuidado do marido em alugar uma caixa postal e esconder os documentos, num local a que ela não teria acesso fácil. O Francisco, pensara em tudo para lhe esconder a traição. A mentira tem mesmo um sabor amargo, que vai sendo destilado e envenenando o nosso sangue.
Para quê continuar a mortificar-me? O que se passou tem mais de dez anos! Dez anos é muito tempo. Esteve quase decidida a não continuar a leitura. Algo porém a impelia a seguir em frente, masoquismo talvez, mas principalmente a sua personalidade forte que a impediam de deixar as coisa a meio.
Esperava, oh como esperava, que tudo tivesse sido uma aventura sem consequências, nascida pelo fascínio de uma mulher mais jovem e certamente bonita e a fraqueza de alguém que está só, numa terra estranha. Na realidade ainda se recusava a acreditar, que toda a sua vida de casada tivesse sido uma encenação.
Como era, Francisco, dizia para a fotografia:
- Estavas comigo a pensar nela ou estavas com ela a pensar em mim?
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