quinta-feira, 25 de novembro de 2010


CAPÍTULO V - O SEGREDO


Deixou passar algum tempo. Precisava de arranjar algo que a tirasse de casa, do meio das recordações, agora tremidas.
Quando Francisco regressara de Nova Iorque insistira com ela para que deixasse de exercer medicina no consultório de sempre e assim tivessem mais tempo para estar juntos. Fez a vontade mas agora, tratar doentes, talvez fosse o melhor caminho.
Não quis retomar a actividade normal. Optou por se associar a uma ONG, recentemente criada e que acolhia e tratava crianças em risco. Como mulher e médica sentia-se bem, dando um pouco de si a uma causa tão nobre. Esse seu voluntariado ocupava-lhe todas as manhãs e por vezes uma ou outra tarde.
Retomou a sua rotina de café da manhã com o grupo de amigos do hospital onde trabalhara e o chá das cinco em sua casa com as amigas mais próximas, viúvas como ela. Conversavam sobre futilidades ou problemas do dia a dia, sobre a família, saúde e comentavam filmes e programas de televisão.
Maria da Glória, quase se havia esquecido, do misterioso embrulho, quando certo dia à hora do chá, a D. Etelvina apareceu triste e chorosa, porque a filha se havia desentendido com o marido e tinham decidido divorciar-se. Dizia ela para as amigas:
- Calculem que o meu genro, que tem mais de quarenta anos, tinha há largo tempo uma amante bem mais nova do que ele. Foi por puro acaso que a minha filha descobriu a traição. Encontrou-os num café, onde entrara para comprar cigarros.
Confrontou o marido, com a cena amorosa que havia presenciado, ele nem pestanejou. Disse que estava apaixonado e que o melhor era mesmo o divórcio. Os meus netos, um rapaz de vinte e cinco anos e a minha neta que vai fazer vinte e sete, casados e a viverem, ele em Londres e ela no Porto, ainda tentaram compor a relação, mas não tiveram sucesso.
Já toda a gente sabe, que a idade dos quarente aos cinquenta anos é o período mais complicado para um casamento. Os filhos estão crescidos e os homens têm tendência a querer viver outra vida, e terem outras relações. E ficam muito vulneráveis, a qualquer sorriso ou provocação, de uma mulher mais nova. Eu bem que avisava a minha filha, que deveria ter mais cuidado com o seu corpo, fazer uns tratamentos contra a celulite, tirar algumas rugas, mas ela pensava que tudo isso era desnecessário, numa relação de mais de vinte anos. Só agora me deu razão, desabafou a D. Etelvina.
Pois é, dizia a D. Antonieta, os homens em qualquer idade precisam de rédea curta. O meu Estevão, que a sua alma descanse em paz, não ia a qualquer lado sem que eu o acompanhasse, mesmo quando se deslocava ao estrangeiro, por períodos curtos. Congressos ou encontros de colegas da faculdade, eu sempre o acompanhei.
Terminado o ritual do chá e bolinhos, regressaram a suas casas, a pé ou de táxi, conforme a distância.
Quando se viu sozinha, Maria da Glória, de semblante triste e em jeito de revolta, reconhecia que a conversa da amiga tinha sido bem inoportuna. Ela que fazia tudo para não pensar no segredo, e logo veio a conversa da amiga sobre a infidelidade do genro, avivar receios e suspeitas. Na realidade e embora lhe custasse admitir, receava que Francisco tivesse tido uma ligação amorosa, e que se havia comprometido a um pagamento mensal para evitar males maiores. Não foi capaz de suportar a dúvida, cada vez mais latente e precisava de saber a verdade.
Tomou a decisão de desvendar o segredo, que acreditava estava escondido nos papéis que Francisco escondera .
Sentou-se à secretária, abriu a gaveta pegou no embrulho que lá guardara, após terem sido encontrados. As mãos tremiam enquanto o abria. Retirou um envelope em branco. Mirou-o e remirou-o e nada viu escrito por fora. Amarelecido, pensou, é capaz de ser já bem antigo. Com a faca para papel abriu cuidadosamente e retirou o conteúdo. Eram nove envelopes. Contou sete que eram de correio aéreo e reparou que em cada um estava anotado, com a caligrafia que tão bem conhecia, a data do seu recebimento. O dois últimos, não tinham qualquer indicação escrita. Pelo tacto, percebeu que naqueles dois, estariam fotografias. Vou deixar para o fim. Para entender o segredo, vou primeiro dedicar-me, às cartas.
O endereço era uma caixa postal e o remetente apenas um rabisco. Faz sentido, pensava, Francisco não queria correr o risco de que ela visse alguma carta comprometedora. Mas, o ocaso colocou-lhe nas mãos as cartas que ele, com tanto cuidado, escondera.
Abriu o envelope, com o número 1 assinalado no canto esquerdo e marcado com a data de 26 Dezembro de 1996. Nesta data o Francisco estava em Portugal a passar o Natal. Lembrava-se de o ver muito mais alegre do que habitual. Imaginara até que a sua felicidade se devesse a estar em casa e na sua companhia, após alguns meses de ausência. Agora, receava no seu íntimo, que a alegria de Francisco fosse por outros motivos.
Avivou a memória, procurando lembrar a sequência das deslocações do marido, enquanto em Nova Iorque, nos anos de 1996, 1997 e 1998. Confirmou que Francisco partira no final de Agosto de 1996, uma vez que a comissão de serviço teria início logo no mês seguinte. Voltou para passar quinze dias no Natal desse ano e três semanas para as férias de verão de 1997. Disso não tinha dúvidas.
No dia 22 de Dezembro de 1997, veio para as férias de Natal e regressou alguns dias antes do final do ano, dizendo que se tinha comprometido a elaborar um relatório sobre as reuniões de uma conferência internacional e estava atrasado e com dificuldades de o concluir a tempo. Não queria correr riscos e para os evitar precisava de mais tempo. Finalmente, o período da sua comissão terminara no fim de Julho de 1998, gastou algum tempo a arrumar as coisa, regressando definitivamente, no início de Setembro de 1998.
Enquanto ia reconstituindo o período da vida de Francisco em Nova Iorque, ia recordando algumas pequenas coisas, a que na altura não dera grande significado mas que agora lhe pareciam ter alguma razão de ser.
Durante o primeiro Natal, Francisco muito bem disposto, ainda lhe falara na hipótese de Glória o acompanhar, até porque já vivia num apartamento bem agradável. Maria da Glória escusou-se porque não tinha nada preparado, tinha compromissos com doentes que acompanhava e não podia deixar e porque, em boa verdade,não gostava sequer de andar de avião. Francisco aceitou bem as justificações e não insistiu no assunto, comentando que dois anos iriam passar num ápice e que em breve voltaria.


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