
CAPÍTULO – XIX – DUAS MULHERES
Maria da Glória já estava no átrio do hotel quando Carolyn chegou. Era ainda cedo, pelo que foram descendo, calmamente, a Broadway, evitando falar no passado. Escolheram para almoçar um restaurante italiano que ficava perto do Flatiron. Enquanto comiam, Carolyn ia contando a sua aventura como empresária. Sabe, dizia ela, tenho aqui perto uma pequena galeria de arte; Não é grande negócio, porque exponho obras de autores modernos e pouco conhecidos , mas o espaço é agradável e aparece sempre, alguém para conversar. Não faço publicidade, mas tenho muitos conhecidos dos meus tempos de jornalista, que não esquecem e vão passando a mensagem.
Depois de almoço seguiram as duas para a galeria. Glória admirou algumas obras de arte contemporânea, ocupando duas salas, bem decoradas e com espaços de convívio.
Quando Marjorie chegar eu levo-a até ao meu pequeno gabinete. Depois virei buscar a Glória, apresento-a como uma amiga e afasto-me para falarem mais à vontade.
Marjorie chegou cedo, seguiu para o gabinete e estiveram alguns momentos a falar e Carolyn pediu um momento. Voltou com Maria a Glória e disse:
- Marjorie, quero apresentar-te a Glória uma amiga minha. Vão conversando porque eu tenho de sair por um momento.
Sentada numa poltrona, esfregando as mãos, com manifesto nervosismo, Marjorie nada disse. Notava-se que estava inquieta e perplexa ao mesmo tempo. Maria da Glória, sentou-se na poltrona em frente, sorriu, dizendo:
- Por favor não esteja nervosa, fui eu quis muito falar consigo e conhecê-la pessoalmente, porque em fotografia, já a tinha visto. Como deve ter percebido eu sou estrangeira, mais concretamente de Portugal.
Maria da Glória, olhando-a profundamente nos olhos, pensava o que dizer. E, com receio que a emoção a traísse, inventou uma outra personagem.
- Sabe, eu sou a irmã do Francisco, que há uns anos você conheceu e amou.
O meu irmão morreu no final do ano passado e na hora da partida, teve ainda forças para me contar o que se tinha passado entre vocês. Foi com lágrimas nos olhos, que me pediu a procurasse e executasse a sua última vontade. E, eu jurei a alguém querido, que o faria. E é para isso, e só por isso, que aqui estou.
A sua última vontade foi:
- Procurá-la, deu-me uma fotografia, e dizer-lhe o quanto sofreu, por não ter tido coragem de assumir, o amor que os uniu.
- Garantir que, não tendo herdeiros directos, a sua fortuna, deveria ser entregue ao filho, sendo que a Mãe deverá ter todos os poderes sobre a gestão do dinheiro.
Assim, o valor que Francisco enviara, mensalmente, para a conta especial em nome do Anthony poderá ser levantado e dar-lhe o destino que entender, sem formalidades adicionais. Também escreveu que o remanescente da fortuna deveria ser enviada para uma conta bancária da Mâe, porque ela saberia, melhor que ninguém cuidar do filho.
Estes movimentos serão realizados, logo que eu regresse ao meu País, porque tenho os poderes para o efeito e pode estar certa de que tudo será cumprido, como meu irmão desejou.
Em contrapartida, pediu:
- Uma fotografia do filho, que não conheceu, que eu devo levar comigo, para colocar no jazigo de família;
- Que aceitasse receber este album de fotografias, que ele preparou com retratos dos Pais e dele enquanto criança e depois já adulto, para que pudesse mostrar ao filho, quem era e como era o seu Pai.
Esse album, manchado com lágrimas, que ele deixou escapar, enquanto o preparava, está aqui e quero pedir-lhe que o aceite.
Marjorie recebeu o album, folheou-o rápidamente a demorou-se mais a olhar para a última foto, porque era o Francisco que ela conhecera.
Depois, escondeu a cara com as mãos e chorou.
Limpou as lágrimas com o lenço que Maria da Glória lhe estendia.
Esteve em silêncio durante alguns minutos, olhando para um lado e para o outro como se não soubesse o que dizer.
Depois com a voz ainda embargada e olhando para o chão, respondeu:
- Eu não estava preparada para este momento. Compreendi, agora, que Carolyn é sua amiga e a ajudou a planear este encontro.
Foi muito doloroso, confesso. Relembrei o passado, que julgava estar bem distante. Dói sempre, reabrir uma ferida.
Mas permita-me que lhe diga, que o que mais me impressionou, foi a sua coragem em vir à minha procura, e as palavras que proferiu. Eu quero acreditar em tudo o que me disse, mas sei que o Francisco era filho único, foi ele que mo disse e não deveria estar a mentir. Por isso não tenho dúvidas, quem acabou de falar comigo, não foi uma irmã, que não existe, mas a mulher que amou o mesmo homem e com ele viveu.
Agora, depois de a ouvir, sinto por si um grande respeito. É preciso ter um grande coração para se preocupar comigo e com o meu filho. Só agora entendi, porque o Francisco me disse,uma vez, que não tinha a certeza de ser capaz de abandonar a esposa. E tinha razão.
O que aqui se passou deu-me uma lição para a vida.
Todos nós acabamos por viver, não uma história de amor, mas muito mais,
uma bela história de amores.
Venha a minha casa, amanhã por exemplo, para conhecer o meu filho. Eu sei que Carolyn lhe dirá onde é e como lá chegar.
Depois, teremos a calma necessária, para resolver e satisfazer a sua vontade e os seus pedidos. Digo os seus pedidos, porque o coração me diz, que eles são de facto, seus. E por isso que Deus a abençoe.
Levantou-se, rápidamente, saiu do escritório, acenou a Carolyn e partiu.
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