
CAPÍTULO – XVIII – MARJORIE
Ainda não eram dezoito horas, e Glória já estava sentada no lobby do hotel de modo a ver a entrada. Como ia assistindo ao movimento da rua, estava distraída e não deu pelo passar do tempo.
Pedro Martins entrou , olhou em redor e ia dirigir-se à recepção, quando reparou numa senhora sentada, olhando fixamente para a porta, aparentando aguardar alguém. Pensou, ser a Maria da Glória e dirigiu-se ao lugar, perguntando:
-É a Drª. Maria da Glória, não é verdade?
- Sim,... Dr. Pedro Martins, respondeu.
Depois dos cumprimentos de circunstância, Pedro Martins pediu licença para se sentar e escolheu um lugar bem de frente para Glória e começou a falar, olhos nos olhos.
- Drª Maria da Glória, ao telefone a senhora disse-me precisar da minha ajuda. Eu, não sendo ingénuo, calculo que seja sobre qualquer assunto relacionado com o seu falecido marido, e por isso aqui me tem, à sua inteira disposição.
Maria da Glória, aproveitou para resumir, parte, do que sabia sobre a vida do marido, naqueles dois anos em Nova York. Rematou a conversa, olhando para Pedro, e dizendo, naturalmente, o senhor soube do que se passou, não é verdade?
Pedro, hesitou, como a medir as palavras, mas perante o olhar tranquilo de Maria da Glória, acabou por responder que, sim, tinha sabido da ligação do Dr. Francisco, porque ele mesmo lhe contara.
- Sabe minha senhora, posso garantir que quando ele falou comigo o senti completamente dividido e sem saber o que fazer. Por um lado, acredite, ele permitiu, se não fomentou, a paixão desenfreada de Marjorie. Mas também, se deixou apanhar, por esse sentimento avassalador. Estava completamente perdido, e não era capaz de tomar uma decisão. Eu, na altura um jovem de pouco mais e vinte anos, vendo a ligação tão forte que os unia, disse-lhe que o melhor seria pedir o divórcio e seguir em frente. Ele olhou para mim, duma forma algo estranha dizendo não sou desses, rematou, duma forma que me deixou perplexo, porque não entendi o que queria dizer.
Creio mesmo que, as nossas relações pessoais, esfriaram, a partir daquela conversa. O Dr. Francisco nunca mais me falou no assunto.
Como penso que sabe, ele partiu às escondidas e eu só soube na véspera da partida, quando ele me chamou, para me entregar uns dossiers importantes, dado que seguiria para Lisboa no dia seguinte.
Ingénuamente, eu perguntei-lhe quando tencionava voltar, ele respondeu com a voz embargada - talvez nunca mais.
Incrédulo com o que ouvia, ainda perguntei se os assuntos pessoais tinham ficado resolvidos e como. Respondeu-me, com os olhos rasos de lágrimas, que não. Apenas isto, nada mais, mas eu subentendi o restante, e tive pena.
Eu conheci a Marjorie, porque o Dr. Francisco me convidou algumas vezes para jantar e para algum espectáculo na cidade, apresentando-me a companheira, como sendo uma amiga. Ela era bastante mais jovem, muito bonita e elegante. Era também muito simpática e gostava de conversar. Nos olhares, nos mais pequenos gestos que trocavam entre si, dava para ver, que na realidade, o que havia entre ambos era muito mais do que amizade, e que a paixão que os unia e que não conseguiam disfarçar, não era uma coisa simples.
Fiquei com imensa pena dela, confesso, pois a única culpa, que se lhe podia apontar, era gostar demasiado do seu marido.
Esta é a parte da história que a drª. Maria da Glória queria conhecer, não é verdade?
- Sabe, Dr. Pedro, eu já tinha tirado as minhas conclusões, mas aproveito para lhe perguntar se não voltou a ter notícias do meu marido, nos dez anos que entretanto, já passaram?
- Na verdade, recordo que em princípios de 1999, o mês não posso precisar, estava eu em Washington, quando recebi uma carta do Dr. Francisco a dizer que se ia reformar. Ao mesmo tempo, confessou-me que vivia amargurado, pois Marjorie lhe tinha escrito uns meses antes, a comunicar que ia ter um filho dele, mas que se recusava a reconhecê-lo como Pai. Tinha perdido o contacto com ela e procurava uma maneira de a ajudar e de criar condições financeiras para o futuro do rapaz. Sim, ele confirmou que era um rapaz e até me disse o nome, creio que Anthony se a memória não me falha. Pediu a minha ajuda e eu não fui capaz de a negar.
Quando voltei para Nova York, algum tempo depois, tentei localizar a nova morada de Marjorie, mas não tive sucesso.
Por sugestão de um colega, fui falar com o gerente do Banco com quem trabalhava. Queria a sua ajuda para abrir uma conta que pudesse receber o dinheiro enviado para uma criança. O Gerente, embora fosse um procedimento incorrecto concordou em abrir a conta no nome que eu lhe indicasse e que a morada seria a minha.
Informei o Dr. Francisco, e passados alguns dias, ele telefonou a agradecer-me a minha diligência,e a comunicar o nome do beneficiário e o montante mensal da transferência. Se a memória não me falha, eram mil e quinhentos dólares mês.
Fui recebendo os documentos, fui até chamado à Inspecção do Banco, porque a situação era algo irregular, mas deixaram passar, com o meu compromisso de resolver o assunto dentro do mais curto prazo.
Destas diligências dei conta, por correio electrónico, ao Dr. Francisco.
O destino quis que, no verão de 1999, eu tivesse acompanhado Carolyn, que entretanto conhecera e com quem acabei por casar, à apresentação, na loja SAKS da quinta avenida, da nova colecção Outono/Inverno. Eu não dava muita atenção à roupa, mas, porquê mentir, reparei bem nas manequins. Imagine a Senhora, que um dos manequins era a Marjorie.
Acabado o desfile, arranjei maneira de falar com ela, mas sem dizer o que pretendia. Quando nos viu e me reconheceu, quis voltar as costas mas eu insisti para lhe dar uma palavra, que podia ser importante para ela, mas principalmente para o flho. E falei da transferência que mensalmente Francisco vinha fazendo a favor da criança. Ela abriu os olhos de surpresa, chorou muito, lágrimas verdadeiras, mas recusou qualquer tipo de ajuda.
Drª Maria da Glória, deixe-me interromper aqui a nossa conversa, para avisar a minha mulher que irei chegar um pouco mais tarde.
Pedro afastou-se um pouco, ligou o telemóvel, falou um bom bocado. Glória ouviu-o repetir, por mais de uma vez o nome do marido, o que a intrigou. Era evidente que ele estaria a contar à mulher o que se tinha passado. Pedro voltou com um convite que, sem saber bem porquê, não surpreendeu Glória.
- Doutora, a minha mulher insiste para que eu a convide a vir jantar nossa casa. Pessoalmente, também ficaria muito satisfeito se aceitar este nosso pedido. Não vai ser um jantar muito formal mas creio que não levará a mal. O que me diz?
- Aceito o vosso amável convite mas não quero que a minha presença constitua algum constrangimento. Eu não sou uma pessoa muito formal, e troco bem uma refeição especial por uma agradável conversa.
- Então se assim é, e estiver de acordo, tomamos um táxi e seguimos já.
Maria das Glória gostou de Carolyn logo à primeira vista, pelo à vontade com que esta a recebeu. Tomaram um aperitivo e jantaram informalmente, conversando animadamente sobre Portugal, que Carolyn já havia visitado, e de que gostava muito.
Sentados na confortável sala, Pedro decidiu concluir a história que começara a contar.
- Continuando a nossa conversa, e por o Banco me pressionava a resolver a questão da conta irregularmente aberta, enviei novo mail ao Dr. Francisco dando conta da situação. Não recebi resposta, mas passado um ou dois meses deixei de receber os documentos bancários. Pensei que o Dr. Francisco teria conseguido resolver o caso sem a minha intervenção e de certa maneira, esqueci.
Creio que até comentei esta situação contigo Carolyn, lembras-te?
- Sim lembro muito bem. E já agora vou fazer uma confissão.
Eu conhecia Marjorie desde quando,jornalista, escrevi sobre moda. Tivemos vários encontros e daí nasceu alguma intimidade e confiança mútuas. Pouco tempo depois de a termos encontrado na passagem de modelos, recebi uma chamada dela pedindo para falar comigo. Combinamos um encontro e ela contou-me toda a sua história de amor e levou consigo o bebé, na altura com dois anos.
- Carolyn, mas tu nunca me contaste nada, porquê, perguntou Pedro?
- Marjorie pediu-me que guardasse segredo e eu cumpri o prometido. Até hoje, porque creio que a Glória merece saber toda a verdade.
Marjorie procurou-me impelida por dificuldades financeiras. As sua economias tinham desaparecido, a famíla ajudava no que podia e trabalho era difícil de arranjar. Ela sabia da existência dos fundos à ordem do filho, mas não sabia o que fazer.
Fui com ela ao Banco, aceitou legalizar a situação, mas por força das instruções do ordenador, não lhe era permitido aceder ao dinheiro. Era demasiado orgulhosa para pedir a Francisco autorização e não o quis fazer.
O gerente do Banco, que também me conhecia, sugeriu que ela contraisse um financiamento pelo valor que não excedesse um montante previsível da conta do filho mas que exigiria, um avalista. E eu avalizei a operação.
Marjorie nunca falhou uma prestação e o Banco nada me exigiu.
Falámos, ocasionalmente uma vez ou outra, até para eu saber se tudo estava a correr bem para ela e para o menino. Disse-me que sim, tinha desenvolvido um projecto de criação de uma linha de moda e que já comercializava alguns modelos. O negócio tinha-lhe permitido ir amortizando o empréstimo e ter um pequeno apartamento só para ela e para o filho e dando-me a morada para eu a visitar. O que fiz, algumas vezes, a última das quais, há um mês atrás.
E é isto, a minha parte na história. Não conheci o Dr. Francisco, Marjorie nunca criticou o seu comportamento. A dor que sentiu reservou-a para si. Por isso Glória, não lhe tenha rancor, ela não merece.
Pedro, ficou sem saber o que dizer. Por momentos o silêncio foi de chumbo.
Maria da Glória, de olhos molhados, abanou a cabeça em sinal de resignação.
- Como devem calcular, meus amigos, o que eu sabia até hoje, não me foi contado por ninguém. Só uma questão levantada pelo meu Banco, acerca da transferência de dinheiro, é que me levaram a querer conhecer a história, que, estava longe de imaginar, sequer, tivesse acontecido e principalmente, que ela pudesse envolver tanta dor. Eu não vim aqui remexer no passado. Ele está morto e enterrado. Vim porque, na realidade, a criança é o único herdeiro do meu marido. Sei que o dinheiro não paga desgostos, mas eu só partirei se encontrar a Marjorie e vir a criança e acordar a forma de poder entregar a herança paterna. Nada tenho contra ela. Como eu, também foi vítima de circunstâncias que assumiram uma dimensão impensável. O que me move, aquilo que me deu forças para, embora muito ferida, ter decidido encerrar esta história de amores e desencontros, foi a lágrima de um moribundo, e que só mais tarde, bastante mais tarde, entendi.
- Hoje já é tarde, mas amanhã, sábado tentarei falar com Marjorie, combinando um encontro na minha galeria, propôs Carolyn. Não lhe vou dizer do que se trata mas julgo que a Glória poderá aparecer, após o meu aviso, e encontrar-se com ela. A conversa será entre duas mulheres, extraordinárias, mas apenas entre as duas. Eu afastar-me-ei.
- Fico-vos grata por tudo, e só lamento, que o jantar tenha sido prejudicado, pelo vento frio do passado, terminou Glória.
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